OS ESQUEMAS TÁCTICOS NO ÍNICIO DA LIGA ESPANHOLA 2002/2003

11 de Setembro de 2002

VALÊNCIA: A máquina de Mister Benitez

Treinador: Rafael Benitez Sistema Táctico: 4x2x3x1 Sem grandes estrelas, Rafa Benitez montou um bloco muito compacto que foi ganhando consistência com a continuidade do sistema táctico eleito: o 4x2x3x1. A segurança defensiva remonta já aos tempos de Cuper, com um forte bloco a «4», cujas bases são a dupla de centrais argentina Ayala-Pellegrino.

A razão para essa política residiu no equilíbrio técnico-táctico do onze, na sua eficácia e na falta de reforços indiscutíveis acessíveis aos cofres de Mestalla. De inicio, a única exigência de Benitez fora a contratação de um defesa-direito, mas tal acabou por não se verificar, mantendo-se Curro Torres sem concorrência directa. Como ponto de referência inicial do colectivo, quer a defender como a atacar, está uma aguerrida dupla de trincos, Baraja e Albelda, o doble pivot, como lhe chamam os espanhóis, que, com grande pulmão, fazem a primeira marcação defensiva e depois, dotados de grande poder atlético, lançam o ataque, transportando a bola ou passando-a á linha média. É um sistema táctico quase imutável, mas que não teve, a época passada, um onze base. Falta-lhe um goleador. O melhor marcador em 2001/2002 foi o trinco Baraja com 6 golos.

Depois de experimentar vários nomes (Carrew, Salva, Mista...) acabou por eleger Angulo como o homem mais adiantado, apoiado por um segunda punta, nº10, o falso avançado centro, Aimar, a organizar o jogo nas suas costas. No flanco esquerdo do ataque permanece o dilema entre Kily Gozalez ou Vicente. São jogadores muito diferentes. Kily, mais do que um extremo é um médio volante ofensivo que causa desiquilibrios quando surge de surpresa vindo de trás, a tabelar ou a rematar, mas que perde efectividade quando permanentemente solicitado e com marcações em cima, pois não é, como Vicente, um verdadeiro extremo, aquele que encara o defesa, dribla-o e vai á linha centrar. Um contraste que, face á necessidade de abrir a frente de ataque, leva Benitez a optar, preferencialmente, pelo jogador espanhol.

DEP.CORUNHA: A armadilha de Irureta

Treinador: Javier Irureta Sistema Táctico: 4x3x1x2 / 4x5x1 Esta será a quinta época de Irureta no banco do Riazor. Embora tendo reforçado a equipa com três novos elementos -Juamni, Jorge Andrade e Acuña- nenhum irá entrar de imediato na equipa, onde o sistema de doble pivot, (composto por Duscher, Sergio, Mauro Silva ou Acuña, que substituiu Emerson) á imagem do Valência de Benitez, também é a principal referência táctica, opte Irureta pelo 4x5x1, variante mais compacta do moderno 4x3x2x1, ou pelo mais elasticamente ofensivo 4x2x3x2, uma opção que varia, sobretudo, com o facto de serem jogos fora ou em casa. Conhecido por ser um técnico conservador, Irureta como que cultiva uma dupla personalidade táctica. Desde que em 99/2200 o seu Depor foi campeão conquistando apenas quatro pontos fora em toda a segunda volta, vingou a ideia de ser um treinador que arrisca pouco, colocando a ordem colectiva á frente do talento individual.

A sua prioridade na preparação desta época foi melhorar o sentido posicional da defesa, neste momento chefiada Naybet, acompanhado de César. Nesse sentido, os jogos da SuperTaça revelaram maior concentração e poder de antecipação em todo o sector, onde se espera a plena recuperação do lateral-direito Pablo. Em termos ofensivos, a opção preferencial pelo 4x2x3x1 em vez do 4x4x2 resulta das características dos dois pontas de lanças ao dispor: Tristan e Makaay. Enquanto o espanhol é um jogador de espaços curtos, tecnicamente sublime, o holandês, mais rápido, é o típico jogador de contra ataque e espaços vazios. Após as exibições realizadas a época passada, no clube e na selecção, um homem tornou-se referência obrigatória de ambos os onzes: Valerón, agora com mais liberdade para a atacar, mantendo, simultaneamente, o mesmo labor pendular na chamada zona pressionante do meio campo, uma acção de marcação no qual também é crucial, sob a esquerda, o velho Fran, um símbolo do Deportivo.

REAL MADRID: A constelação desiquilibrada

Treinador: Vicente Del Bosque Sistema Táctico: 4x2x3x1 Quando durante a pré temporada, Del Bosque disse, lapidarmente, que desde há 36 anos que o Real Madrid não passava um defeso sem fazer uma contratação, ele estava apenas, sibilinamente a dizer, como muitos analistas já concluíram, que embora a sua equipa, com uma linha ofensiva do outro mundo, fosse demolidora, ela possui-a, ao mesmo tempo, um colectivo descompensado. Assim mesmo: demolidor e descompensado. Durante a época passada ficaram claras as principais necessidades do Real: um defesa central e um avançado centro. Enquanto no ataque Morientes e Guti ainda disfarçassem algumas carências, na defesa a situação era evidente, face á incapacidade de Hierro, cada vez mais duro de rins e faltoso, em solucionar todas os problemas.

Apesar das boas exibições do jovem Pavón, o Real necessita de maior segurança e classe na zona central da defesa, sobretudo com laterais tão ofensivos como Michel Salgado e Roberto Carlos. Muitas vezes, para dar maior coesão á defesa, Helguera recua para central, mas tal descompensa a frente da defesa, o seu verdadeiro lugar, formando doble pivot com Makelelé, o primeiro e maior distribuidor de jogo deste Real das estrelas, estruturado preferencialmente em 4x2x3x1. Com Helguera a central, surge o argentino Cambiasso, ex-River, ao lado do francês. Em todos os cenários possíveis, não havendo contratações, esta parece a melhor solução. Cambiasso, 23 anos, cresceu muito como jogador, tem personalidade, um pouco o estilo-Redondo e vocação ofensiva. No ataque, todos anseiam a explosão de Portillo, 20 anos, um fabuloso produto goleador da cantera madrilena. A sua frieza concretizadora em frente ás redes é impressionante. Não há bola que toque na área que não cause perigo. Um estilo fascinante, capaz de marcar uma época na história merengue, que é a principal razão por a maioria dos analistas, Del Bosque e Zidane incluídos, não considerarem prioritária a contratação de Ronaldo. Imperioso, isso sim, é o reforço do centro da defesa.

BARCELONA: O bloco de notas de Van Gaal

Treinador: Van Gaal Sistema Táctico: 3x3x4 / 3x2x3x2 É o caso táctico mais complicado. Depois de Rexach, o onze reaprende a jogar no dinâmico 3x4x3 típico da escola holandesa. Na defesa o principal problema situa-se no lado esquerdo, onde Van Gaal experimentou vários jogadores: Motta, Santamaria, Gabri, Cocu, Reiziger, acabando por se fixar num chaval da cantera que revelou grande qualidade: Fernando Navarro. Os problemas estendem-se, depois, sob a mesma faixa esquerda, até ao meio campo, onde está Cocu, muito bem a fechar o flanco defensivamente, numa missão indispensável em sistemas de apenas três defesas.

Esta opção debilita, porém, a zona central, onde Van Gaal gostaria que Cocu fizesse duplo pivot com Xavi, o elemento capaz de dar maior velocidade á bola e profundidade ao jogo, que tem tido a seu lado Gerard ou Rochemback. A outra questão reside na posição de Puyol, defesa-direito de raiz, mas que, face ao seu valor e carisma, chegou a ser utilizado no centro, como já jogou na selecção. Após várias experiências falhadas, acabou por regressar ao seu posto inicial, fixando-se De Boer, tecnicamente mais seguro, no centro da defesa. Como o 3x4x3 exige laterais-ofensivos, por entre este laboratório de experiências, ficou, também, a utilização, na direita, de Mendieta como carrilero, nome pelo qual os espanhóis chamam os homens que fazem todo o corredor. Destro natural, Mendieta faz o lugar, mas não possui pulmão para a tarefa. O seu lugar indiscutível é como médio-ala direito que flecte no terreno para organizar o jogo a partir das bandas. Em 3x4x3, esta posição obriga-o, porém, a ter maior concentração defensiva, perdendo assim capacidade atacante.

Com Riquelme eleito líder incontestável do meio campo, no trio ofensivo ainda existem dúvidas de posicionamento. A principal questão é a posição de Saviola, encostado por Van Gaal ao lado direito, jogando quase como um extremo, apoiando Kluivert, no centro. Por outro lado, sabe-se como Van Gal, gosta de ver Kluivert recuar um pouco no terreno jogando atrás de um nº9 clássico – como, por exemplo, Jimmy- com quem tabeleria, repetindo assim, no Nou Camp, a dupla da selecção holandesa. Tal sacrificaria, porém, a magia de Saviola, imparável quando entra a rasgar pelo centro, mas que, desta forma, amarrado a um flanco, perderia liberdade para criar.

AT.MADRID: O regresso do sábio de Hortaleza

Treinador: Luís Aragonès Sistema Táctico: 4x2x3x1 / 4x4x2 Regressado de dois anos no inferno da Segunda, o At. Madrid de Luis Aragonés, o sábio de Hortaleza, um devoto do 4x4x2, aposta num claro esquema de contra-ataque, dentro de um desenho táctico com uma defesa de «4», á frente de outra linha de quatro elementos, num meio campo com rombo (triângulo invertido com o vértice virado para a frente) e dois avançados, um fixo e outro nas costas, estendendo assim a equipa em 4x2x3x1 ou 4x2x2x2. Há, porém, que, primeiro, criar a automatização colectiva do onze face á entrada de novos titulares, entre eles o novo director de jogo: Albertini. Começou a jogar como médio de transição, o chamado enlace, e acabou á frente da defesa, como ficou famoso. Mais do que um trinco, ele é o farol do onze. Necessita, porém, de tempo para assentar jogo e adaptar-se á nova realidade pois trata-se de uma mudança de país, campeonato e estilo de jogo. Difícil será saber quem fará dupla com ele como pivot: Movilla, Nagore, ou Emerson, o mais provável pelo pulmão que possui no transporte de bola. No ataque, o chico de ouro Fernando Torres, a inteligência técnica em movimento, terá a companhia de Aguilera, na direita, ficando o português Dani com a missão de cobrir todo o flanco esquerdo. Neste sector, onde Javi Moreno e José Mari devem partir do banco, muita atenção a outro reforço: Luís Garcia, a picardia do contra ataque, ex-Valladolid.

As lições de Vitor Fernandez e o Osasuna de Aguirre

Numa época em que pela segunda vez na história do futebol espanhol quatro equipas andaluzas –Bétis, Sevilha, Málaga e Huelva- disputarão a I Division (a outra vez fora em 79/80), outra das grandes atracções desta Liga será observar o percurso do filósofo Vitor Fernandez no banco do Bétis, após várias épocas de sucesso no Celta e Saragoça, congeminando sempre bom futebol, eficaz e sedutor, com o jogo pelos flancos sempre activo. Em Sevilha, -capital da região, Andaluzia, onde historicamente mora o futebol mais técnico de toda Espanha- terá ao seu dispor dois dos três melhores extremos do futebol espanhol: Joaquin e Denilson (o outro é Overmars e mora em Barcelona). Falta um ponta de lança cabeceador. Os nº9 á disposição são Alfonso e João Tomás. Embora pareça, no papel, um sistema conservador e pouco imaginativo, o 4x4x2 pode, com uma dinâmica táctica colectiva-individual bem preparada, tornar-se um dos esquemas mais elásticos e perigosos.

As lições dadas por Vitor Fernandez, nas últimas x épocas em Vigo provam essa ideia. Com o mesmo sistema preferencial de 4x4x2 surgem também Juande Ramos (Espanhol), Peiró (Málaga), Gregorio Manzano (Mallorca), Denouix (Real Sociedad), Joaquim Caparós (Sevilha), Vitor Muñoz (Villareal) e Lucas Alcaraz (Huelva). Sem Fernandez, o Celta reaprende um novo conceito táctico com Miguel Angel Lotina, ex-Osasuna, adepto do 4x2x3x1, com Catanha solto na frente.

3X5X2: O sistema campeão do mundo em Pamplona

Na teoria, o 3x5x2 parece um sistema que vive sobretudo do meio campo, mas, na verdade, o seu sucesso depende, sobretudo, da eficácia, defensiva e ofensiva, do jogo pelos flancos, ao mesmo tempo que a zona frontal, m frente á defesa, exige a presença de dois homens que, mais do que meros trincos, trabalhem muito na recuperação da bola. Á partida, o único profeta deste sistema –campeão do mundo 2002 com o Brasil- na Liga espanhola é o mexicano Luís Aguirre no Osassuna. Os carilleros são o argentino Rivero, na direita, e o jovem António López, na esquerda. Sob o meio campo estão Puñal e Goncedo. Com o nº9, o possante australiano Aloisi. Noutro plano situa-se o Alavés do Bruxo Mané, a grande sensação das últimas épocas, partindo de um sistema aparentemente defensivo: o 5x4x1.

A dinâmica ofensiva da equipa, com Ruben Navarro a avançado centro, apoiado por Jordi Cruyff e Magno, prova, no entanto, o contrário. Na chuva do país basco, Jupp Heyckes, em 4x4x2, ou, com a bola, em 4x3x3, continua a congeminar uma das equipas com maior tempo de posse de bola da Liga espanhola. O responsável por este carrossel de circulação da pelota é, essencialmente, o meio campo, onde está a nova pérola de S. Mamés: Tiko. Em Sevilha, atenção ao quarteto Gallardo-Moisés-Reyes-Salas, bom futebol e golos

A ESPANHA EM FRENTE Á DEFESA: O Império do Doble Pivot

Vejamos as duplas que, a partir da meia lua, irão marcar, tanto em rendimento atlético como em capacidade de execução, o ritmo de jogo das equipas espanholas no arranque da época de 2002/2003: VALÊNCIA - 4x2x3x1 : Baraja e Albelda CORUNHA - 4x2x3x1: Mauro Silva e Sérgio REAL MADRID - 4x2x3x1: Makelele e Cambiasso BARCELONA - 3x4x3: Xavi e Rochemback BÉTIS - 4x4x2: Marcos Assunção e Benjamín ATH.BILBAO - 4x3x3: Alkiza e Orbaiz CELTA - 4x2x3x1: Giovanella e Lucín ESPAÑOL - 4x4x2: Maxi Rodriguez e Morales SEVILHA - 4x4x2: Torrado e Samways REAL SOCIEDAD - 4x4x2: Xavi Alonso e Karpin ALAVÉS - 5x4x1: Pablo e Turiel AT.MADRID - 4x2x3x1: Albertini e Emerson MÁLAGA - 4x4x2: Romero e Miguel Angel MALLORCA - 4x4x2: Lozano e Marcos OSASUNA 3x5x2: Puñal e Gancedo VALLADOLID - 4x2x3x1: Chema e Jesús RACING SANTANDER - 4x2x3x1: Matteo e Ismael RAYO VALLECANO - 4x2x3x1: Quevedo e Pablo Sanz VILLARREAL 4x4x2: Galca e Gracia HUELVA 4x4x2: Merino e José Mari

A opção quase generalizada, no futebol espanhol, pelo uso de dois trincos, o chamado doble pivot, consagra, no entanto, o 4X2X3X1 como o sistema mais utilizado. Sem os grandes maestros de outrora, o futebol moderno entregou a essa dupla plantada em frente á defesa, as chaves que marcam o ritmo de jogo da equipa. Uma realidade que também está presente no 3x4x3 típico da escola holandesa do Barcelona de Van Gaal, o único onze, que junto com o Osasuna do mexicano Aguirre, devoto do 3x5x2 de inspiração sul americana, opta pela linha de defesa a «3» em vez da clássica linha de «4». Em qualquer sistema, porém, será a dinâmica do colectivo que irá fazer a diferença entre o desenhado no quadro do balneário e o jogo evidenciado dentro do relvado. Analisemos, pois, algumas destas questões tácticas que marcam o actual futebol espanhol, geneticamente latino, historicamente virtuoso e impulsionado pela fúria, mais do que um estilo de jogo antes um estado de espirito, numa altura em que toda a afición se encontra dividida entre o aproveitamento das jóias da cantera –o futebol jovem que tantos êxitos internacionais lhe tem dado- e a importação cada vez maior de grandes estrelas estrangeiras.

OS ESQUEMAS TÁCTICOS NO ÍNICIO DA LIGA ESPANHOLA 2002 2003

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