O grito do último minuto

15 de Setembro de 2016

Noite de Champions. Entre Ronaldo e Talisca existe um mundo a separá-los. No futebol, porém, existem as mais estranhas formas de aproximar e distanciar jogadores. Os jogos podem durar 90 minutos, mas nenhum tem tanto impacto como o último. Aquele onde, tantas vezes, se concentra a última oportunidade.

A bola parada na relva, a barreira olhando-a como espelho de ansiedade, o guarda-redes tentando tapar todos os buracos por onde ela pode passar. Nesse momento, Ronaldo e Talisca pareciam iguais para o arrepio que, subitamente, percorria o corpo de todos os adeptos, treinadores e jogadores verdes ou encarnados. Das duas vezes, a bola parte como teleguiada. Rui Patrício e Ederson voam. Um deles ainda lhe toca. Mas nas duas ela entra. As duas derrubam um resultado feito em todo o jogo anterior.

Enquanto Ronaldo não festeja e abraça colegas, Talisca corre eufórico e grita o golo com revolta. Nesse momento distanciam-se. São histórias diferentes. Provocam no jogo, porém, o mesmo impacto (apesar de em Madrid, depois, ainda aparecer Morata).

O Sporting de Madrid foi o da “afirmação internacional” de Jesus. A equipa montou-se para pressionar a meio-campo a saída de Modric e a ligação de Kroos, numa missão comandada e ativada por Adrien. Manteve Bruno César no meio (resgatando a fórmula que virara o jogo com o FC Porto) e, com bola, deu a caixa das invenções a Gelson.

O Real não esperava um plano táctico com intensidade e qualidade individual tão forte. Acabaria por provar que, de facto, no Bernabéu, 90 minutos são muito longos mas, antes, quando saíram Gelson e Adrian e entraram Lucas Vásquez e James, a tendência do jogo (a palpitação das ameaças) já mudara.

Na Luz, Rui Vitória teve de inventar uma equipa, mas mais do que as ausências iniciais, foram simples instantes sem Fejsa na parte final que abriram a porta central ao nascer de um livre provocado numa zona (e de uma forma) que dificilmente a âncora sérvia admitiria.

Jesus falou da falta de experiência para gerir aqueles minutos finais. A este nível, essa ideia pode aplicar-se ao jogo mas dificilmente se aplica a... jogadas. Isto é, resolver jogos nos últimos minutos com gestos técnicos que marcam a diferença por cima de todo o jogo não é para todos.

Os livres de Ronaldo e Talisca, como o centro de James e o cabeceamento de Morata, surgem com uma precisão de quem quase consegue suster a respiração debaixo de água mais tempo que todos os outros por perto. Nessas alturas, o sangue quase que gela. Parece que nem existiram os 89 (ou 93) minutos anteriores. Passa a ser tudo uma questão particular de um jogador contra o resto do jogo, da equipa adversária e do mundo.

Não há que ter pressa

gonçalo guedes

Para tornar tudo mais irónico, pouco antes do grito de Talisca, quase que Quaresma dava o segundo golo ao Benfica ao decidir passear com a bola pela frente da área turca, como se estivesse sozinho em campo. Não estava. Gonçalo Guedes roubou-a, ficou isolado, rematou, mas o guarda-redes fez uma grande defesa com a bota (quase de andebol).

No meio de todas estas baixas no onze da Luz, surgiu a oportunidade para o relançamento de um jogador que, de outra forma, teria poucas hipóteses de lá voltar com a mesma margem que teve quando apareceu (e então lhe projetaram um valor talvez prematuro). Gonçalo Guedes. De repente, ele passou a ser a única opção para a frente.

Consequência: mostrou o jogador que é verdadeiramente e não o que quiseram fazer dele. Um bom jogador, diga-se desde logo, por definição. Que não é explosivo nem empolga bancadas em jogadas individuais, mas sabe jogar, no controlo da bola para ganhar espaços e lê bem o jogo para fazer o passe, apertado ou com mais espaço.

Gosta mais de pensar com bola (e executar) do que correr com ela (e soltá-la rapidamente). Ou seja: não tem pressa em campo. Não quer fazer as coisas bem depressa. Quer fazer as coisas bem e ponto final. O futebol não tem que ser (sempre) tão rápido como pensam.

Emoção ou ideias


brahimi 

É muito mais fácil transmitir uma emoção do que uma ideia. Quando Brahimi entrou em campo, com o jogo empatado, as bancadas do Dragão estalaram numa enorme ovação.

Naquele momento, porém, poucos estariam a aplaudir Brahimi propriamente dito. Mais do que o argelino das fintas que tanto abrem latas como se metem em becos sem saída, os adeptos estavam era a exteriorizar a emoção (esperança) que a sua entrada lhes dava, aumentada por um processo que o afastara desde a pré-época.

Bastaram algumas jogadas, para, tal a forma como Brahimi se meteu mais nos tais “becos sem saída”, essa emoção se diluir face à incapacidade da equipa encontrar o espaço para furar e marcar. Por essa altura, Nuno já mudara o plano inicial (4x3x3) para um 4x4x2 com o “carro de assalto” Depoitre a nº9 mas se existia coisa que os centrais-torres dinamarquesas não temiam era o crescer da dimensão física do jogo.

Nuno tem muitas ideias (e diversas) para este seu FC Porto. Não me parece é que os jogadores as possam perceber e muito menos aplicar (alternadamente) tão depressa. Voltarei, brevemente, ao tema.