Os jogadores não mudam. Descobrem-se é com o tempo

08 de Outubro de 2016

1.

O jogador é o mesmo, mas tudo à sua volta mudou. A atmosfera, a equipa, a exigência competitiva, a pressão das bancadas e da imprensa. Entre o “Marega do V. Guimarães” que empolga e faz golos e o “Marega do FC Porto”, a quem a bola parecia ter picos e não encontrava baliza pode haver assim tanta diferença? É estranho, mas pode.

Mesmo sabendo como jogar em Guimarães (penso nos jogos em casa) também faz uma “nuvem de pressão” em cima dos jogadores, o “entorno” de clube grande, sobretudo entrando a meio da época e com o onze ávido de soluções, mete o jogador numa moldura emocional que pode-se tornar uma jaula das suas “qualidades”.

E reparem que não escrevi qualidade. Procurei no terno “qualidades” dizer que o jogador, não sendo um “craque sem reticências”, tem pontos de jogo interessantes que, se despertados no sitio e momento certo, podem fazer dele várias vezes o melhor em campo (e neste caso arrombar defesas, literalmente, e fazer golos).

Marega consegue isso em Guimarães, mesmo dominando mal uma bola em que ficava isolado a começar o jogo contra o Sporting. A bancada levantava-se, desilude-se, “oooooh” , mas espera por ele para a jogada seguinte. E ele aparece. No FC Porto, a bancada não está habituada a isso e faz sentir que não pode ser assim e na próxima jogada, quando ele recebe a bola, já quase o fuzila com os olhos, a ver se ele, dessa vez, vai fazer bem. E ele não aparece. Perceberam a diferença de jogar num clube grande, no tal peso da camisola?

Um jogador tem como que escalões de qualidade dentro dele, que são testados à medida que a sua carreira avança. Até pode ser que noutro tempo, entrando numa equipa já feita e a jogar bem, Marega consiga fazer no FC porto mais das suas diagonais que parecem levar o lateral atrás de si agarrado (mais do que antes fintá-lo) e depois chegar à área já tendo vestido o fato de nº9 pelo caminho e fazer o golo. Pode ser. A diferença é que, em Guimarães, faz isso no habitat, de jogo e equipa, hoje, à dimensão ideal para ele. É ele, aliás, que nesse seu estilo a faz crescer, e ele também cresce com ela.

2.

Os jogadores mudam mesmo conforme o local. Não tanto a posição, embora nesse caso, isso levasse a um debate mais táctico-técnico.

Outro jogador, que também está no Marítimo (de onde Marega saiu para o FC Porto), que tenho espectativa de ver numa dimensão de “clube grande” é o Dyego Sousa. Acho que é um excelente ponta-de-lança. Movimenta-se bem, tem técnica, encara bem em cunha entre defesas e remata, bom cabeceador, fazendo golos.

Não sei como reagirá num grande. Se tem qualidade ou só “qualidades”. Eis a diferença. E a sua cabeça, claro, como reagirá a essa novo ambiente de pressão e exigência competitiva, em que cada jogada é a mais importante num jogo.

Confesso, naturalmente, que ter enfiado um murro ou uma chapada forte num fiscal-de-linha num jogo particular da pré-época me fez abrir os olhos de espanto. Mas, afinal, que tipo de cabeça está ali naquele corpo de jogador? Nunca lhe detectara esse temperamento. E isso tanto pode ser ego desmedido (que, mal controlado, o destrói), como outra coisa que pode revelar o tipo de ponta-de-lança que é capaz de se encarar com uma defesa inteira (mesmo aquelas de 7/8 homens), sem ter medo de ninguém.

Não, descansem, não estou a defender a tese da agressão como indício de personalidade. Estou a tentar perceber os sinais que um jogador dá, estando num local determinado, se poderá funcionar, e como irá reagir (técnica e emocionalmente), metido noutro, onde todas as exigências sobem.

Muito do futebol é isto, tentar adivinhar o futuro. Os jogadores nunca são um “livro fechado”. Podes logo dizer que um é bom, sem dúvida, joga muito em qualquer lugar. Não podes dizer logo que outro é mau ou não terá valor para mais, para um patamar acima.

Perceberam essa diferença para quem observa e tem de decidir?