Os jogadores que fazem o que ninguém espera

01 de Dezembro de 2014

Os jogadores que fazem o que ninguém espera

Mais do que pelas coisas que faz, mesmo imprevisíveis no jogo, um jogador surpreende mais pelas coisas que faz mas que não imaginaríamos capaz (ou vocacionado) para tal. Mais do que gestos técnicos fantásticos, penso em ações coletivas.

Há dias, Paco Jémez, treinador espanhol, dizia que era “um apaixonado pela desordem. As melhores equipas estão constantemente a desordenar-se e a ordenar-se, alternadamente”. Falava em termos coletivos mas essa capacidade tem, claro, a ver com a mobilidade inteligente dos jogadores e sua permanente noção de sentido posicional. Quando sai para desequilibrar, quando regressa para equilibrar. Na primeira situação, para além do impacto no adversário, isso também tem, porém, implicações (de desequilíbrio) na sua equipa. Por isso a necessidade de não perder o timing de recuo/reequilíbrio.

É esta questão que condiciona muito a mudança de posição de alguns jogadores. Ser capaz de a interpretar nos diferentes momentos no jogo e não só quando ele está na sua zona de conforto (em geral, com bola).

Esta semana, alguns jogadores fizeram-me pensar nisso.

No Real Madrid, após a lesão de Modric, quem passou a jogar no duplo-pivot ao lado de Kroos (em 4x4x2) foi Isco. A capacidade de saída com bola era esperada. Fixar mais o seu jogo no espaço central (ele que é um avançado que gosta de vir desde a ala) suscitava mais dúvidas. O maior desafio está em interpretar aquele papel tático sem bola.

Os primeiros jogos nessa posição suscitam a tal surpresa que fava no início do texto. Um jogador (como Isco) a fazer aquilo que não se imaginava vê-lo fazer com eficácia e disciplina tática: médio-centro, pivot, trabalhando na pressão sobre o adversário. Sem dimensão física para o choque, usa a chamada agressividade tática. Ler linhas de passe e colocação em antecipação. E depois sair a jogar. Dando mais vezes a bola.

Outro caso, é Aubameyang no B. Dortmund. Tem contornos diferentes. Nunca o vi como um verdadeiro extremo, mas como tem uma velocidade estonteante e o colocam sobre a faixa, colara-lhe esse rótulo. As sua origens vêm, no entanto, do espaço central. Foi assim que o Milan o detetou e jogou em França no St. Etienne, só que como os espaços para explodir em velocidade se situam naturalmente nas faixas, acabava em muitos jogos a arrancar desde esses locais.

Os jogadores que fazem o que ninguém espera Agora, em Dortmund, mesmo tendo Immobile e Ramos, avançados-centro puros, Klopp passou a apostar em Aubameyang como n.º 9 puro. O modelo de jogo da equipa (transições e ataques rápidos buscando profundidade em passes mais largos) é o ideal para servir um jogador como Aubameyang que lhe dá, por natureza, profundidade enorme em cada jogada de ataque.
Em ataque continuado teria mais dificuldade, mas vendo como mesmo em espaços mais reduzidos ele sabe jogar em apoios, de costas, ou recuar para procurar a bola e virar o jogo, deteta-se um jogador muito para além do extremo supersónico como antes todos o definiam. Mais do que pela sua natureza, o seu futebol emerge agora pelos seus fundamentos de jogo. Fica (mostra-se) como sendo muito mais jogador.

É desta matéria que são feitos os jogadores das melhores equipas. Em termos individuais, acelerar ou abrandar primeiro que a equipa. Em termos coletivos, seguir-lhe os passos e, em campo, ninguém acelerar ou abrandar melhor do que eles.

No fundo, aplicando a tese-Paco Jémez ao plano individual, desordenar-se e ordenar-se alternadamente para fazer o coletivo mover-se nos ritmos e espaços certos.