Os jogadores são para o que nascem

14 de Novembro de 2014

Adrián Lopez não veio da lua. Veio da equipa mais elogiada da época passada, o At. Madrid campeão espanhol e finalista Champions. Não foi sempre titular, mas foi chave em muitos jogos. Num deles, Simeone anunciou mesmo que sem Diego Costa não tinha problema: “joga o Adrián e vai marcar um golo!”. O jogo era a meia-final contra o Chelsea. Adrián não marcou, mas fez um grande jogo e foi titular na segunda mão, onde foi decisivo e marcou mesmo. É este mesmo jogador que hoje é tão criticado no fim de mais um intrigante jogo do FC Porto.

Basta ler estas primeiras linhas para perceber que algo não bate certo. As criticas a Adrián e o intrigante jogo. Existe relação entre elas? Sim e não. Por isso o adjetivo intrigante para o jogo, porque foi totalmente o oposto ao visto poucos antes em Bilbao, onde a equipa fizera uma exibição tático-técnica perfeita.

Podem existir muitas razões para um treinador mudar um jogador. Existem menos para um treinador mudar um sistema. Não existe quase nenhuma para mudar uma forma de jogar que se revela eficaz. E o “quase” prevê jogos contra adversários fortes que exijam uma estratégia específica que mexa no tal sistema preferencial (e produtivo). Nada disso se verificava no Estoril.

Como centro da mudança de sistema, Adrián tornou-se de repente num objeto misterioso na equipa. Não deixava de ser o bom jogador daquele passado recente. Deixava era de estar nas condições e espaços indicados para o ser. Um homem (jogador) certo no local, hora e sistemas errados. Acontece no futebol.

Inconfortável, aquela espécie de 4x4x2 coloca-o numa terra tática árida junto de Jackson. Podia recuar mais para pedir a bola? Podia. Mas, duvidando que lhe pediram isso (raramente o tentou) essa não é a sua vocação como jogador - nunca foi. Seria mais lógico as trocas posicionais com Brahimi, caindo na ala como fez no passado.

O seu At. Madrid era, porém, uma equipa que jogava de forma diferente, embora também em 4x4x2. Fazia-o recuando o bloco e ataques rápidos para a profundidade dada por Diego Costa. Neste sistema, Adrián era falso ala de diagonais ou segundo-avançado desde trás com espaço. No 4x4x2 do FC Porto (sem rotinas) nem os alas recuam, nem a equipa tem esses espaços. Eles reduzem-se até ao tamanho de uma cabine telefónica para quem recebe a bola nos últimos 25 metros, sem poder mover-se entrelinhas. Ao contrário da profundidade do ataque rápido, é obrigado a jogar em ataque continuado contra adversários fechados. Meter Adrián nesse sistema-jogo é como mete-lo num colete de forças tático.

Esfuma-se o jogador mas, antes disso, esfuma-se o bom jogo coletivo que a equipa faz a partir do 4x3x3 com um pivot com dois interiores abertos, alas e um n.º 9 exímio a jogar de costas e recuar, Jackson, que com Adrián atrás dele também fica impedido de fazer esse contramovimento.

Os jogadores são para o que nascemSem zona de construção a meio-campo (Casimiro a 6 e Herrera saltando três linhas, avançando-recuando-avançando) a equipa perde condições de aplicação dos seus melhores princípios de jogo já exibidos. A passagem do 4x3x3 para o 4x4x2 (quase sempre 4x2x4, sistema impossível de alguma equipa jogar de forma equilibrada) arrasta, num ápice, o bom futebol azul-branco.

Pode ser estranho acabar a dizer isto mas acho Adrián um bom jogador. Não pode é fazer-se dele a chave da mudança do sistema. A melhor forma dele jogar neste FC Porto é na faixa (vindo da esquerda). Todas as outras ideias são no contexto competitivo dominante do nosso campeonato onde o FC Porto se move, ilusões que se desvanecem no campo (e com elas a equipa).