Os melhores treinadores orientam equipas em cima duma árvore

14 de Março de 2017

1.

Por trás de um grande homem, há sempre uma... pequena história. Ok, admito que a tese mais comum da “grande mulher” também será verdade, mas neste caso pensava em treinadores de futebol mesmo.

Quando vemos o momento que Sampoli vive em Sevilha depois de inventar o Chile dos “três centrais baixinhos”, dissecamos a sua ideologia de jogo e os conselhos teórico-filosóficos de Juan Manuel Lillo (que está a seu lado, para, mais do que um adjunto, ser uma espécie de guru espiritual duma forma de entender o jogo e respeitar a bola), mas na origem de alguém que pensa o futebol desta forma está sempre, no tempo em que ainda vivia longe dos grandes Estádios, a tal “pequena história”, que denuncia tudo de grande que vem alcançando.

O seu atual Sevilha muda os sistemas e joga sempre da... mesma forma no modelo. Muda, apenas, a missão “micro” de disciplina táctica. Assim ganhou ao Real Madrid, com mais um craque redimensionado por um diretor-desportivo, Monchi, que tem um “toque de Midas”, pois torna o que toca em ouro. Seja jogadores que se tornam revelações, sejam craques que pareciam adormecidos. Desta vez o craque renascido foi Jovetic.

Por isso, quando se pergunta a Sampaoli se a sua ideia de futebol é só realizável com “craques” ou com “soldados”, ele responde que “é indiferente a qualidade do jogador se necessitamos do convencimento dele, do dirigido. Sem isso, é impossível. "Devo ser capaz de os convencer. Ser protagonista do jogo requer muita explicação prévia”.

A ideia de ter a bola está na base da ideologia Sampaoli-Lillo, mas a busca pela posse deve sempre iniciar-se “com ataque posicional a partir do guarda-redes, seja a pressão do rival alta, baixa ou média”. Neste principio esteva a base do sucesso do jogo do Chile: “defender bem tem a ver com detectar o sector por onde o adversário entra. Fico contente por o ter conseguido sem ter especialistas na defesa, pondo médio-volantes baixotes como defesas-centrais e buscando o engenho com o que tínhamos.”

É a aplicação prática do lado utópico do seu jogo, porque “o impossível está dentro dos nossos parâmetros”.

2.

Mas, antes de todo este mundo de futebol, existe a personalidade que o faz nascer. É onde ganha dimensão, na altura impensável, a “pequena” história que está por trás do grande treinador elogiado do presente.

Foi quando, no começo de carreira, com apenas 35 anos, o jovem Sampaoli começou a treinar o anónimo Alumni na inóspita Liga Casildense, num pequeno torneio regional em Santa Fé, na Argentina.

Tudo se passou quando, num desses jogos, foi expulso. Após protestar, teve de, resignado, sair do campo. Olhou ao seu redor, procurou o local para onde ir e poder continuar a ver bem o jogo, mas não estava fácil. Era um campo pequeno, apenas com uma bancada meio arcaica e pouco mais. Olhou para um lado, olhou para o outro, quando, já em desespero, porque o tempo passava e não conseguia um local sossegado para ver bem o jogo, encontrou por fim uma solução: uma árvore que estava atrás de uma baliza.

Era ali mesmo. Decidido, pediu ajuda, subiu-a e acabou por se fixar num local empoleirado nela, num galho, desde onde podia ver bem o jogo. Continuou, assim, a dar instruções. Foi a primeira vez que a sua foto saiu num jornal no dia seguinte, exactamente nessa posição, tentando afastar as folhas para ver melhor, com uns óculos escuros redondos típicos da moda da época.

A atitude, insólita, causou sensação em todos que a viram. Quem era, afinal, aquele jovem louco treinador? O seu destino, toda a carreira nos anos seguintes, iria mudar a partir dessa data até se tornar conhecido (o seu percurso e ideias). Do Chile a Sevilha, tudo começara, afinal, na “pequena história”, em cima de uma árvore, com óculos escuros, por entre galhos e folhas.