Os novos reis de África

20 de Novembro de 2010

As ruas, em terra, repletas de gente e os jogadores a desfilar num velho camião aberto, saudando a multidão. A paisagem futebolisticamente fantástica, espelho da África mais profunda, passa-se em Lubumbashi, Republica Democrática do Congo. Os heróis são os jogadores do TP (iniciais de Tout Puisance, todo possante) Mazembe, campeão africano de clubes pela segunda vez consecutiva, após bater na Final, o Esperance da Tunísia, equipa mais europeia no estilo apoiado de jogar.

O TP Mazembe personifica o estilo mais puro da África negra: imaginação, velocidade e alguma ingenuidade à mistura que se esquece pela forma malabarista como resolvem cada lance. O primeiro jogo, em casa, marcou o destino (5-0). Uma exibição alucinante de velocidade e futebol a dois-três toques que, num ambiente incrível, atropelou o onze tunisino. A equipa tem, no entanto, bases tácticas interessantes, uma estrutura posicional (4x2x3x1) bem definida e uma dinâmica de jogo que acelera sobretudo do meio-campo para a frente. O único jogador mais lento (ou que joga mais devagar) é o sábio trinco zambiano Sunzu, de 33 anos. Todo resto da equipa joga sempre em alta velocidade. Uma ideia de jogo lançada pelo técnico francês Diego Garzitto, campeão em 2009 (mas despedido em Agosto) e seguida pelo senegalês Lamine N`Diaye que pegou na equipa.

Em relação ao onze campeão a época passada, falta a estrela atacante Mputu, suspenso um ano após agredir um árbitro no Rwanda. Imperturbável, a equipa recriou os seus processos ofensivos com três avançados em permanente mobilidade. Apontem os nomes: Kabongo, 25 anos, espécie de extremo esquerdo, Singuluma, 24, a asa zambiana que fura pela direita e Kaluyiutuka, 23, o goleador. Atrás, como enganche ofensivo, Kasongo, 30, inteligente na hora de segurar a bola e lançar os avançados, jogando à frente dos dois médios mais defensivos: Sunzu (o trinco) e Mbeza Bedi, 26 (que lança a transição defesa-ataque). Na baliza, um excelente guarda-redes, Kidiaba, 31, que festeja cada golo aos saltos sentado no chão! Uma coisa incrível.

A pergunta que salta ao ver estes jogos é logo de saber se estes talentos podiam explodir da mesma forma na Europa. Dificilmente. A disciplina táctica é maior, o espaço para inventar é menor. Mesmo assim, eles têm condições naturais impossíveis de encontrar tão facilmente no mercado europeu sobretudo de forma cruzada: velocidade, imaginação (quase rebelde) e potência física. Bem enquadrados numa equipa, qualquer um deles, individualmente, podia, com educação táctica paciente, ser um factor de desequilíbrio no tacticismo europeu. Podem vê-los em Dezembro, no Mundialito de Clubes.

Champions asiática: Final

Os novos reis de ÁfricaNa habitual viajem pelo Planeta do futebol, o sábado de manhã foi passado, rodando a parabólica, a ver a Final da Liga dos Campeões Asiáticos. Depois do Pohang Steelers em 2009, o Seongnam Ilhwa Chunma em 2010. Os clubes da Coreia do Sul continuam a dominar. Desta vez, bateu, em Tóquio, uma esforçada equipa iraniana, o Zob Ahan, que vinda de Isfahan, furara o tradicional domínio dos gigantes de Teerão. Procurando jogar em bolas longas, lançou na frente dois jogadores que retive: Khalatrabi, rápido médio ofensivo que se transformava em avançado. Tem apenas 20 anos. Poderá estar aqui a futura estrela do futebol iraniano. O outro destaque foi um…brasileiro (único estrangeiro do onze). O avançado Igor Castro, vindo do Coritiba em 2007.

O Seongnam é, claramente, mais equipa. Num jogo mais vertical e rápido, explorou bem as faixas, com o colombiano trotamundos Molina (Estrela Vermelha, Santos, Monarcas, San Lorenzo…) a orientar as manobras entre meio-campo e ataque. Via-se que os iranianos procuravam marcá-lo individualmente, mas sempre sem êxito. Na defesa, o australiano Ognenovski, 31 anos, tirou todas as bolas de perigo. Mas, muita atenção ao nº9, Cho Donggeon, avançado móvel de área, exímio no jogo aéreo, excelente cabeceador, a rematar ou a desviar. Tem 24 anos e só foi uma vez à selecção. Um jogador para descobrir!

Coreia do Norte Sub-19

Os novos reis de ÁfricaPode não significar nada de especial, mas os simples factos causam admiração. Após longos anos sem contactos com o exterior, a Coreia do Norte emergiu subitamente no top do futebol asiático. Foi ao Mundial-2010 e agora, em poucos meses, conquistou a Taça de Ásia Sub-19 e Sub-17. Estas duas conquistas jovens despertam atenção. Descontemos as dúvidas que logo colocam sobre as idades e a teoria da vantagem de, no seu regime, ainda ser possível estes jovens jogadores ficarem muito tempo juntos em longas concentrações. A China também faz isso e não ganha nada.

Vi a Final (contra o Uzbequistão, 2-0). O avançado com o nº9, Jan Chol, joga e move-se muito bem. Para saber se tudo isto pode corresponder a algum trabalho de base é necessário, porém, esperar alguns anos. Se, pelo memos, três ou quatro jogadores destas selecções Sub-17 e Sub-19 chegarem ao onze principal, com qualidade de jogo, pode-se dizer que a Coreia do Norte entrou mesmo na elite do futebol asiático. Para já, apenas um fenómeno que será curioso acompanhar.