Os olhos nunca mentem

06 de Maio de 2008

Os olhos nunca mentem

O futebol tem muitos rostos. Um campeonato é feito de muitas personagens. Pelé costumava perguntar a Nilton Santos “o que passará pela cabeça da gente na hora de uma jogada?”. Nilton não ficava muito sensibilizado: “Tem nego aí que não passa nada!”, dizia. “Pois, na minha, passa um filme de longa-metragem!”, respondia o Rei.

Por definição, vejo um jogo de futebol como uma caixa fechada de emoções. O adepto, o jogador ou o treinador tem como ele a mesma relação que o pássaro tem com a serpente. Aproxima-se atraído pelo mistério de saber o que esconde lá dentro, segue depois a bola com precisão magnética e, de repente, fica preso aos diferentes desenhos que ela faz pelo relvado. No interior do jogo, alegria, tristeza, sofrimento, coragem… No fundo, está tudo. Em simultâneo e em lados opostos. Por isso, compreendo a visão do Pelé. Cada jogo é um filme de futebol. E devia ser filmado como tal. Se há momento em que tal acontece é nos grandes planos dos jogadores durante as transmissões televisivas. Nessa altura, o realizador, mais do que fintas ou faltas, vende emoções.

A última jornada revelou várias imagens com essa força. Na Amadora, o gesto brusco e o olhar com raiva contida, após o apito final, de Rui Costa como sentindo a relva a fugir-lhe debaixo dos pés, o ocaso da carreira, sem conseguir mudar o destino encarnado. Nenhum outro jogador consegue, porém, a força de transmissão de emoções como João Moutinho.

Esta semana o lado frio dos números, oposto às emoções, revelou que nenhum outro jogador estivera tanto tempo em campo numa equipa portuguesa durante uma época. Durante as longas exibições falhadas do Sporting, o zoom sobre a sua imagem revelava, em estado puro, a mistura de sofrimento e impotência que sentia para, apesar de morder a bola, a relva e o mundo, alterar o jogo e a equipa. As mãos na cabeça, o semblante meio desfigurado, o olhar no vazio. Volta a abrir um sorriso num olhar por vezes ainda quixotesco quando, por fim, consegue iluminar o jogo com um passe ou um remate seu.

Enquanto persegue a bola o jogador vai vivendo o seu filme de futebol.

Os diálogos não mudam muito de cenário para cenário, mas há duas palavras que são clássicos. Expressam a permanente relação com a bola.

“Toma!”, na altura do passe. “Dá-me”, pedindo-a de novo.

Qual destas palavras deverá repetir mais para a controlar e fazer um bom filme, isto é, um bom jogo? Moutinho dá a resposta certa em cada gesto.

Pode parecer contraditório, mas é a primeira. Dizer, “toma” em vez de “dá-me”, leva, no jogo de emoções, a intenção de quem a recebe sentir ter de fazer o mesmo para a soltar rápido, na hora certa. Ter a bola faz um jogador sentir-se importante em campo, mas só sabendo dar-lhe a ordem certa torna-se também importante no jogo. Os grandes planos também são um raio x para decifrar qual a palavra que domina então a mente do jogador. Porque, só os olhos nunca mentem.