Os pássaros exóticos

25 de Junho de 2009

Os pássaros exóticos

Chililabombwe, Ouagadougou, Bamako e Nairobi. África profunda. Cidades enlouquecidas pelo futebol. Zâmbia, Burkina, Mali, e Quénia. Seguindo os jogos do Mundial, em transmissões televisivas que por vezes parecem vir da lua, a atmostera nestes Estádios da África negra são únicos no mundo.

Bancadas arcaicas repletas, o público enlouquecido, de pé, tentando arranjar um lugar que seja, pendurados em muros, dança, aplaude, protesta.

Uma atitude vibrante, em condições incríveis. Falar em meios tecnológicos nestes cenários, com instalações degradadas e onde nem sequer há dinheiro para comprar bolas, é irónico, absurdo mesmo. Passar um fim-de-semana só a ver estes jogos, faz-nos sentir pequenos.

A forma como o Burkina se transformou numa equipa não é obra do acaso, porque nem se detecta no onze, como sucede na Costa do Marfim, o eclodir de uma geração de talentos. No milagre de Paulo Duarte, sempre de pé procurando ajudar os seus jogadores a manter o rigor táctico, Pitroipa, do Hamburgo, que na selecção surge no centro (no clube costuma jogar mais na ala) perto do ponta-de-lança, Dagano (no Qatar depois de uma vida em França) são os únicos nomes que furam o lado operário de uma equipa que ataca com grande imaginação, mas que perde a cabeça a defender. Só por isso não venceu os sábios Drogba, Eboué, Kalou Touré e companhia.

Sucede o inverso com Moçambique. Defende melhor do que ataca. Consegue manter-se sempre equilibrado a defender (Campira-Massingue-Heider-Paito) com um pivot de grande nível (Simão), mas apesar de ter alas que também dão profundidade (Domingues e Genito) tem pouca mobilidade na frente de ataque, onde a velha dupla Dario e Tico-Tico já não descobre os espaços necessários para furar para o golo. Hagi, o médio mais subido, não é um rompedor. Muitas vezes é Paíto que, vindo de trás, rasga as defesas. Perdeu no Quénia, onde passou a maior parte do tempo perto da baliza, mas…longe do golo.

No fim desta viagem por terras africanas, um jogo empolgante. O Mali-Benin. Aberto, polémico e com bons jogadores. Ganhou o Mali (3-1). Sem o goleador Omotoyossi, foi Sessegnon, do PSG, que mexeu com o jogo do Benim, nas costas do esforçado ponta de laça Poté, do Clermont. É curioso ver como quase todas estas equipas têm extremos perigosos no seu jogo.

No Mali, quem faz chover é Kanouté. Todo o onze olha para ele. Destaca-se pela forma como sai do ataque, recua no campo, pega na bola, acalma a equipa e faz passes para organizar jogo. Nesses momentos, o treinador, o carismático Stephen Keshi, cruza os braços. Nem vale a pena falar. Aquele jogo já é só de Kanouté. Um rei do mágico futebol africano