Os princípios de Camacho

06 de Setembro de 2007

Os princípios de Camacho

Ao terceiro jogo já se vislumbra o que pode ser, esta época, o Benfica de Camacho após o diluir da explosão de ânimo que o seu regresso provocou. A primeira coisa que uma equipa deve procurar em campo é o equilíbrio, de forma a nunca perder as ligações entre-linhas. Contra Guimarães, Copenhaga e Nacional, ficou claro o seu sistema preferencial: o 4x2x3x1. Nesta fidelidade, mais do que uma simples opção táctica, o importante foi verificar a aposta numa ideia de jogo, em contraste com o ciclo inicial de Fernando Santos que, em dois jogos, vagueara por três sistemas diferentes, desde o 4x4x2, em losango ou em linha, até ao 4x3x3.

E, no início de época, mais preocupante do que falta de mecanização do «jogar» e seus desacertos, é verificar a falta de uma ideia de jogo (sistema e princípios) definida para trabalhar. É evidente que é mais fácil faze-lo num plantel equilibrado e estável, mas, para qualquer treinador, seja em que circunstância for, deve ser essa a primeira preocupação. Foi o que fez Camacho ao apostar no 4x2x3x1. Mesmo sem ter, por exemplo, uma opção sólida para a ala direita, insistiu em criar hábitos no sistema (primeiro com Nuno Assis, depois com Luís Filipe, e, na Madeira, por fim, com um ocupante natural da posição, Pereira). Ou seja, em vez de, face aos desacertos, mudar sucessivamente a estrutura em busca de um clique mágico onde a equipa passasse a jogar sobre carris, entendeu a falta de mecanização como natural e insistiu no seu sistema e modelo. Só desta forma se podem criar hábitos no «jogar» da equipa, adquiririndo maturidade e equilíbrio táctico em campo. Na Madeira, queixou-se que a equipa deve ter maior posse de bola. Para o conseguir necessita, porém, de unir mais as suas diferentes linhas, sobretudo meio-campo e ataque, na transição ofensiva. A colocação mais recuada de Rui Costa, não se traduz, no entanto, num duplo-pivot defensivo puro. Só por vezes, no momento defensivo é que surge de perfil com Petit.

Com Rui Costa nessa zona, a equipa ganha maior qualidade e visão de jogo no início da transição defesa-ataque, mas era necessário, á sua frente, no centro da segunda linha do meio-campo, um jogador capaz de pegar na bola e fazer a ligação entre-linhas sem obrigar Rui Costa a ter que percorrer tantos metros transportando jogo. Nuno Gomes, nesse espaço, é um avançado que recua. Com bola, sabe temporizar e passar.

Mas, sem bola, não consegue fazer a tal ligação na dinâmica referida.

Quando Di Maria jogou nesse lugar, viu-se a diferença, mas o melhor lugar do argentino é solto na esquerda. Rodriguez ou Nuno Assis podem ser uma solução. Na resolução desta questão táctica, reside a solução para a equipa conseguir maior posse de bola.