Os «sambas» perdidos

28 de Novembro de 2009

Os jogos ganham e perdem-se em instantes mas convêm não criar ilusões. Apesar da força de uma simples jogada, 89 minutos valem sempre mais do que apenas um.

Adriano, o Imperador,está de regresso. Um tanque, 98 kg. no meio dos centrais adversários. Ele é a imagem que devora todo o actual time Flamengo. Quando a bola lhe surge perto, tudo parece possível. É a principal razão para o Mengão chegar perto do fim do Brasileirão 2009 a sonhar com o título que lhe foge há 17 anos. Só que na maior parte dos 90 minutos a bola não está ao jeito do remate-bomba de Adriano. E, assim, no jogo em que podia passar para primeiro lugar, contra o Goiás, a equipa acabou presa nas suas limitações e empatou 0-0.

No fundo, essas limitações são espelho do actual estado do futebol jogado nos gramados brasileiros. Lento, previsível, médios que correm mais do que jogam e pouca criatividade. Nesse mundo, Ronaldo (Corinthians), Adriano (Flamengo), Washington (São Paulo) e Alecsandro (Internacional), pesados e à espera da bola, acabam ainda por ser as grandes estrelas.

O São Paulo de Ricardo Gomes é, na táctica e nos jogadores, a equipa mais completa. Joga num 3x5x2 compacto porque tem o meio-campo mais equilibrado. No leme das transições, está Hernanes, num triângulo que deixa Arouca mais recuado e aposta em Jorge Wagner como médio esquerdo, ora abrindo na ala (combinando com o lateral Junior Cesar) ora aproximando-se da dupla de avançados, com o móvel Dagoberto e o fixo nº9 Washington. Outra opção é Hugo, que, embora algo lento, tanto pisa terrenos mais recuados como surge perto da área. Com Jean na lateral-direita, a equipa assegura a largura, mantendo-se sempre os três zagueiros atentos (Renato Silva-André Dias-Miranda) com um grande guarda-redes atrás (Rogerio Ceni).

O Flamengo (ver quadro) de Andrade joga num sistema mais europeu, entre o 4x4x2 e o 4x2x3x1, mas sofre para organizar jogo desde trás. A equipa é muito lenta na saída de bola pelo centro pois os seus três médios são essencialmente de marcação (Ayrton e Toró, ficando Williams mais solto na meia-direita). William é, claramente, o seu melhor médio, mas a equipa só consegue acelerar através dos laterais (Leo Moura-Juan) ficando toda a criatividade entregue ao velho Petkovic, 38 anos, tecnicamente genial mas cada vez mais parado à espera da bola. Nesse contexto, acaba por ser Zé Roberto, vagabundo, a inventar espaços perto da área, mas sem se perceber bem se é médio ou avançado. No fim, fica a ideia que passa demasiado tempo longe da área.

Duas equipas, São Paulo e Flamengo, na luta pelo título, mas nenhuma sem possibilidade de deixar grandes memórias para o futuro.

Palmeiras e At.Mineiro

Os «sambas» perdidosFoi o facto que causou mais impressão neste Brasileirão: a quebra do Palmeiras de Muricy Ramalho, que chegou a parecer ter o título seguro.

Ainda tentou mudar o 3x5x2 para 4x4x2, para dar mais força ao meio-campo, mas puxar Edmilson para volante travou a saída de bola, exigindo que Sandro Silva, ou Souza, se desgastassem muito a vir buscar jogo atrás (Pierre é mais posicional). Neste cenário, é Diego Souza que, nas costas dos avançados, dá maior lucidez à equipa que, nos últimos jogos, descobriu um bom médio, muito dinâmico: Giego Saconi. No ataque, Wagner Love sentiu-se algo estranho no regressar aos gramados brasileiro, levando até que o paraguaio Ortigoza lhe ganhasse o lugar quase sem fazer um remate, embora segure bem a bola e apoie o perigoso Obina, traído pela sua cabeça quente (esmurrou um colega e foi expulso).

A outra equipa que se afastou neste final foi o At.Mineiro. É, no entanto, em 4x4x2, uma das equipas mais interessantes. Diego Tardeli no ataque (apoiado por Eder Silva) joga muito e faz golos (18). Olhando o passado, fica a sensação que veio demasiado novo para a Europa (Bétis e PSV). Por isso falhou. Agora, aos 23 anos, mais forte, estaria na hora certa para voltar. Outro renascido foi o volante Correia, que agarra a equipa com classe e pulmão, largando o veterano Ricardinho mais para os passes.

A marca do Internacional

Os «sambas» perdidosDe todas as equipas, aquele deixa a maior sensação de ter podido dar mais é o Internacional (4x2x3x1). A ilusão resulta sobretudo do seu bom meio-campo, aquele que, no campeonato, melhor combina recuperadores com criativos.

No primeiro momento, tem o melhor recuperador e passador de primeiras bolas do Brasileirão: o argentino Guinazu, muito experiente, apoiado pelo pêndulo Sandro, perito no equilíbrio defensivo. Com 20 anos é das maiores promessas para o futuro do futebol brasileiro.

No segundo momento, o criativo, surge a promessa Giuliano (tal como Sandro, da selecção Sub-20), belo toque de bola em condução e visão (lembra Diego) e o argentino fantasista D`Alessandro, que pega na bola em qualquer ponto do relvado e assume o jogo com classe e qualidade, ora na faixa, ora no centro, quer no passe como no um-para-um. Para os apoiar, surgem Taison ou Marquinho, muito rápidos. Na frente, um velho conhecido leonino, sempre pesado, mas que no lento futebol brasileiro, até parece logo melhor: Alecsandro. Fez 16 golos…