Os “selvagens metódicos”

14 de Janeiro de 2016

Foi-nos apresentado como o campeonato que “nenhum dos grandes podia perder”. Cada qual pela sua razão particular. Essa pressão autocriada por força das exigências teve, jogada toda a primeira volta, efeitos diferentes no interior de cada equipa.

É comum dizer-se que entra em vantagem quem não muda de treinador e mantem a estrutura. Em tese, até pode ser assim, mas na prática as coisas não tem essa lógica tão linear. Em vantagem entra quem começa com melhores ideias e mais certezas. Mesmo que elas tenham sido construídas na noite anterior.

O único grande que mantivera o treinador, o FC Porto, é aquele que o dispensou ao fim de metade do campeonato. E, para isso, muito terá contribuído esta não ser a sua primeira época no clube. Lopetegui é ainda um “case study” em aberto que, só com a distância, se perceberá exatamente o que significou (ou quis significar) na história do FC Porto.

Caiu sozinho. Da mesma forma que pareceu sempre viver no plano da personalidade e da ruptura metodológica que a sua contratação queria provocar. Ficou a sensação que se tentara um efeito semelhante ao que, salvo as devidas proporções, se conseguira com Adriaanse há uma década. No jogo (porque também trazia um ideia diferente, embora de execução difícil no imediato pela complexidade do modelo) e no balneário (na gestão de um grupo forte).

Só que, entretanto, muita coisa mudara no país futebolístico. Porque todo esse jogo de conquista e poder depende sempre da correlação de forças entre os três grandes clubes. Nesse passar dos anos, Benfica e Sporting, este mais recentemente, reinventaram-se e cresceram nessa perspectiva.

Muita coisa aconteceu mas para essa alteração resumiria estes dez anos a um facto: “aconteceu Jorge Jesus”. Mudou o Benfica (seu jogo e dinâmica) e está a mudar o Sporting (ao mesmo nível embora num entorno diferente). Nas épocas que ganhou, o FC Porto foi fiel a si próprio e, perante a ameaça de novo fracasso, é disso que sente agora necessidade: de regressar ás raízes.

Neste contexto, e mesmo vendo o lado mais “soft” que o Benfica adquiriu na postura de Rui Vitória, a importância de ter um chamado “treinador de confronto”, no plano da motivação quase supraestrutura e profundo conhecedor das entranhas estratégicas do nosso futebol, tornou-se fundamental. Terá, claro, de trazer essa boa ideia consigo mas esse “pedigree” é essencial.

O perspectivar da segunda volta está, assim, preso por saber quem será o novo treinador do FC Porto. Sabemos o que é, e continuará a ser, o Sporting de Jesus, percebemos por onde poderá crescer (ou solidificar-se) o Benfica de Rui Vitória, mas é no regresso do poder do “FC Porto de confronto” que poderá estar o verdadeiro relançar do campeonato. Como se fosse uma nova época que começasse a meio.

O “Dandy” da Costa Rica

 É difícil escolher o jogador da primeira volta pelo que vou dizer aquele que, no líder, me faz fixar mais o olhar quando pega na bola: Brian Ruiz. Eu sei que nos golos decisivos Slimani é o “homem”, mas no plano de dar ao jogo e à bola uma qualidade, carinho e visão, acima da média, o “dandy da Costa Rica” é quem ilumina o campo. Vemo-lo a aparecer desde a esquerda, quase parecendo que só então vem do balneário, pegando no jogo na zona central, mas o mais fantástico é que quando na faixa dá a mesma sensação de organizar jogo como se estivesse no meio. E, na verdade, está mesmo.