Os velhos “maestros”

15 de Julho de 2014

Os velhos maestros

Os novos estádios fantásticos mudam a paisagem do Brasileirão mas na relva continuam a ser os velhos profetas da técnica que melhor mandam no jogo. No arranque, quatro equipas se destacam: Botafogo, Coritiba, Fluminense e Corinthians.

Na batuta desse bom futebol, Seedorf, 37 anos, no Botafogo, e Alex, 35, no Coritiba. Pode-se invocar o ritmo mais lento do futebol brasileiro em comparação com o europeu, mas não penso ser essa a razão até porque a maioria das equipas brasileiras joga com dois volantes de marcação nessa zona central preferencial dos organizadores. Os modelo de jogo é que abre mais espaço para movimentações, no sentido em que não existe um jogo posicional tão fixo como na Europa. Ou seja, no processo atacante, a mobilidade e trocas posicionais é uma constante entre as faixas e o centro. Pode-se distinguir um ponta-de-lança mais claro mas, no resto, o ataque é território de vagabundos em que se movem segundos avançados em diagonais ou que entram desde trás, junto de médios ofensivos que passam ou rematam. Assim, os velhos maestros mais do que escolher a melhor posição para jogar, têm de ter a percepção donde está o espaço vazio (varia de jogada para jogada) para se colocarem e receber a bola. Nessa dinâmica técnico-mental, Alex e Seedorf são dois salteadores dos espaços vazios, onde surgem insolentes a fazer grandes passes ou remates.

O Coritiba de Marquinhos Santos joga em num 4x3x3 com dois médios atrás, chefiados pelo trinco Júnior Urso (apoiado por Robinho),e equilibra-se a com a capacidade de Gil, na direita (onde o lateral Vitor Ferraz sobe muito bem) e Botineli, na esquerda, recuarem quando a equipa perde a bola. É esse trabalho táctico que permite soltar Alex atrás do ponta-de-lança Deivid,.

O Botafogo de Oswaldo Oliveira tem um 4x2x3x1 rotinado com os volantes Marcelo Mattos e Gabriel, protegendo três meias-ofensivos de criação. Seedorf joga em busca de espaços, caindo muito bem na faixa para centrar/flanquear, trocando de posição, nesse movimento, com o fantasista Lodeiro. A saída de Felipe Gabriel abriu vaga para Vitinho, 19 anos, na esquerda. A equipa perdeu a posse mais criativa, mas Vitinho remata bem e apoia o nº9 Rafael Marques.

O ‘Tic-Tac’ de Tite

É o treinador mais europeu do futebol brasileiro no sentido de métodos e concepção de jogo. Tite continua a montar belas equipas, com futebol apoiado, privilegiando a posse. Por isso, diz-se que o Corinthians joga uma espécie de ‘tic-tac’ de Tite. No fundo, é um 4x3x3 que se também divide em médios operários e avançados móveis. Com Ralf (apoiado por Guilherme) a chefiar à frente da defesa, solta na frente três avançados, com o peruano Guerreio no centro, Pato a desmarcar-se e Romarinho, sobre a esquerda, em rupturas. Sem Renato Augusto, torna-se decisiva a presença do experiente Danilo nas costas deste trio para lhe dar ordem.

O At.Mineiro de Cuca continua só focado na Libertadores. No seu onze, o último romântico do futebol brasileiro; Ronaldinho. Taticamente, vive no mesmo mundo de Alex e Seedorf, mas mais aburguesado, lento, em termos de movimentos, até porque de todas as equipas, o At. Mineiro é a que tem um sistema (4x2x3x1) com jogo posicional mais definido, face às características mais vincadas de Jô como ponta-de-lança clássico, e Bernard e Tardelli como extremos. Ronaldinho fica então quase sempre à espera da bola para depois iluminar as jogadas com um grande passe. O que é incrível é que a bola parece que nunca se esquece dele e vai quase sempre na sua direção. É a ilusão que os grandes jogadores eternamente provocam.

A ‘muralha’ do Olimpia

O Olímpia está na Final da Libertadores com um estilo que desenha a escola tática paraguaia como a mais defensiva da América do Sul.

Sem dilemas estéticos, parte de um 5x3x2 com três centrais puros (Manzur-Miranda-Candia) e laterais que nunca perdem o posicionamento defensivo. Na maior parte do jogo é, por isso, uma defesa a 5.

Para segurar o resultado na Colômbia contra o Santa Fé (depois do 2-0, perdeu 0-1) tirou um médio (Gimenez) e meteu mais um defesa (Mazacotte) que no primeiro jogo alinhara a lateral e no segundo entrou para ser uma espécie de...quarto central, montando uma espécie de 6x3x1. Uma autêntica muralha tática.

Na origem, o técnico Ever Almeida projeta os laterais a atacar (na direta, Silva, na esquerda, Bentitez) e segura o meio-campo com um trio de combate: o trinco Aranda apoiado pelos interiores Pittoni e Gimenez. Alternadamente um deles sai para apoiar o ataque onde joga uma dupla móvel: Bareiro, entre os centrais adversários, e, solto, o criativo uruguaio Salgueiro, mescla de 10 com segundo avançado.

Bateu na meia-final o Santa Fé de Bogotá, um onze mais ofensivo e tecnicista, num 4x4x2 com Omar Perez no meio a servir a rápida dupla atacante Cuero-Medina que começam muito abertos e depois surgem em diagonais no centro.

Foi eliminado pelo que (não) fez na primeira mão, onde quis defender atrás e especular com o jogo. Perdeu o estilo e perdeu o jogo. Ao mesmo tempo, o Olimpia, mesmo sem cativar ninguém, manteve sempre o factor fundamental que faz hoje uma equipa, defensiva ou ofensiva, ter sucesso: fidelidade a um estilo.

Fla-Flu: Abel Braga-Mano Menezes

No confronto carioca, Fluminense e Flamengo, são equipas muito diferentes (modelo de jogo e estabilidade técnica).

O campeão Fluminense de Abel Braga, com Fred a ponta-de-lança, mantem a dupla de volantes Edinho-Jean a segurar a equipa mas depende muito da evolução de Deco para ter um enganche com o ataque (Wagner luta muito, mas não tem a mesma visão e passe).

Perdeu o ala goleador Wellinton Nem e espera que agora Sóbis, jogando com mais continuidade, volte à melhor forma (sobre a esquerda em diagonais) ficando Rhaynier na direita. É um modelo que a atacar depende muito da subida dos laterais Bruno e Carlinhos.

Ultima nota para o Flamengo agora de Mano Menezes (após despedido Jorginho). Na estreia, contra o Coritiba, montou um 4x2x3x1 que teve como base ofensiva o resgatar de um craque que tinha lançado no Grémio e agora regressa ao Brasil após infeliz aventura alemã: Carlos Eduardo. Reencontrou-o na Gávea e logo o puxou da faixa onde andava triste e meteu-o no centro onde gosta mais de jogar, como segundo avançado, atrás do nº9 boliviano Marcelo Moreno. A equipa melhorou mas só com dois médios puros, Cáceres-Elias, muito recuados, sofre muito quando perde a bola, pois é incapaz de pressionar alto.