Os verdadeiros “clássicos”

22 de Março de 2016

Foi mais uma jornada em que a organização defensiva das ditas equipas “pequenas” se defrontou contra a organizações ofensiva das “grandes”. Estes sim, são os verdadeiros “clássicos táticos” do futebol português. As “goleadas estatísticas” (mais ataques, mais remates, mais cantos...) estão sempre garantidas mas o futebol não é matemática. É mais complicado.
Como se pode usar um “medidor de intensidade de pressão”? A verdade é que isso nem existe no tratamento estatístico porque foge à quantificação simples do jogo. E, para além disso, saber o leva prioritariamente uma equipa a pressionar. Pressiona para jogar ou joga para pressionar (isto é, não deixar jogar o adversário)?
A pressão do Boavista começava em “não deixar jogar” e no tal clássico “equipa pequena-equipa grande” era um principio estratégico lógico. E assim, encurtava sempre o tempo para executar (e pensar) quando qualquer jogador do Benfica tinha a bola. Fez um jogo de luta pelas “segundas bolas” quando em campo, em rigor, só existe... uma bola.
Na antevisão, Rui Vitória defendeu o processo dizendo que as rotinas já estão tão enraizadas que não dependem das individualidades. É justo que o diga, é óbvio que não o pense. E o jogo provou-o. Não ter um 6 que saiba iniciar a construção e permita Renato Sanches sair seguro para o jogo faz diferença na sociedade dos médios-centro. Por isso, até foi Samaris, médio improvisado a central, que saiu mais vezes com a bola. A falta do 10 escondido na faixa retira a maior criatividade à equipa (e ainda obrigou Pizzi a jogar a partir da esquerda, quando o faz bem é da direita). Não ter frente ao bloco baixo axadrezado um nº9 mais fixo como Mitroglou retirou presença de combate na área adversária. Em suma: a melhor aplicação das rotinas depende das melhores individualidades. Em todas as equipas do mundo é assim.
Aos poucos, o Boavista foi descobrindo a outra vida para além da pressão quando roubava a bola. O contra-ataque na profundidade de Zé Manuel e nas temporizações técnicas de Ruben Ribeiro. É das melhores sensações que se tem no jogo quando na tal equipa pequena aparecem jogadores a levar a estratégia para além da sua mera interpretação táctica literal.
A “pressão contra a dificuldade da saída da pressão” marcou o jogo todo até à tal altura em que nada havia mais a fazer. Jonas não era uma personagem deste filme. Sofreu com a pressão, mas “matou-a” no único instante em que fugiu dela. Não procurem lógica em 90 minutos. Procurem classe num milésimo de segundo. No futebol, valem o mesmo.