Os viajantes dos flancos

22 de Junho de 2012

Planeta do Futebol (16)

Cada vez mais elogiar um lateral, é falar sobretudo das suas capacidades ofensivas. Muitas vezes, tal resulta da extinção de extremos típicos, mas, mesmo nesses casos, a participação do lateral no processo ofensivo (porque aparece de surpresa na frente, em vez de já lá estar) é cada vez mais importante nos princípios de jogo de uma equipa. O simples facto de utilizar o termo lateral para o definir, e não o de defesa-lateral, diz muito dessa ideia ofensiva.

Este Euro tem seguido essa tendência, mas cada vez os laterais atacam mais. Basta citar, os nossos João Pereira-Fabio Coentrão, o lateral-corredor de fundo da Rep. Checa, Selassie, ou, claro, Lahm, na Alemanha. (neste caso um bom exemplo do necessário jogo de equilíbrios entre-faixas, pois na direita Boateng fica posicional).

Quando tem esse lateral ofensivo, as equipas têm tendência a sair a jogar pela faixa em vez de pelo corredor central. Não acho, sinceramente, que fiquem a ganhar muito com isso, por uma razão simples: nesses casos, mais do que sair a jogar, o lateral conduz demasiado a bola em posse no meio-campo defensivo. Demora a entrar o passe. Pelo que gosto mais de os ver quando surgem só, desde trás, surpreendendo, no ataque. Como no golo de Portugal à Holanda, com o movimento interior e passe de João Pereira para Ronaldo.

Outros laterais que tenho gostado neste Euro, são Strinic (lateral-esquerdo da Croácia onde ficou provado que puxar Srna de lateral para médio-ala é quase matá-lo pois tira-lhe 30 metros para embalar desde trás), Pisczek (bem a defender e atacar, à direita, na Polónia), e, talvez o mais completo nesse duplo sentido, Debuchy, da França.

Seja como for, uma coisa é clara: um defesa-lateral diverte-se hoje muito mais no jogo do que décadas atrás onde era, essencialmente, um pilar defensivo. Agora já pode viajar por outros territórios sem ninguém estranhar ou achar mal. Pelo contrário, até ficam, contentes por o ver. Porque não viste mais cedo? Pergunta o outro lateral, feliz em surdina, à espera de aproveitar na jogada seguinte o espaço que ele deixou vazio, entrar-lhe nas costas e atacar também.

A linha e a faixa

Pensando nesses viajantes dos flancos, uma das distinções importante é entre um defesa-direito e um...lateral-direito (igual, claro, se pensar à esquerda). Parecem a mesma coisa, mas são muito diferentes. Enquanto que o lateral dá profundidade a atacar, o defesa fica mais a fechar e só sobe é em apoio de circulação. Assim, o mais natural é uma equipa ter um bom lateral de um lado e um bom...defesa do outro (garantindo sempre a presença de três elementos na linha defensiva face ao contra-ataque adversário).

A situação muda quando se joga com defesa a 3 (3x5x2, com três centrais) e os laterais são autênticos cursores de faixa. Neste Euro, a Itália é o representante desse sistema com o símbolo Maggio, lateral-ala direito, já habituado a jogar toda a época nesse sistema/dinâmica no Nápoles. O termo defesa entra menos no léxico táctico de Maggio. Por isso, quando Prandelli quis resgatar o 4x3x1x2, Maggio caiu da equipa e surgiu o menos dinâmico mas mais equilibrado Abate. Um caso claro do sistema antes dos jogadores. Inversão de prioridades na qual, em geral, os laterais são dos principais visados.