“OUTRO TIPO DE FUTEBOL”

21 de Junho de 2014

Para quem não percebesse muito de futebol, imagino a pegar no comando da televisão para mudar de canal para ver a novela (ok, imagino o elemento feminino mais tradicional) e, de repente, assustar-se por achar ter carregado indevidamente em alguma tecla e gritar: “Querido, encolhi os jogadores!”. O alerta é, claro, inspirado, no disparatado filme com Rick Moranis. A sensação, compreensível, resultaria de então estar a dar um jogo da Espanha e ver-se um grupo de “baixinhos” à solta pelo campo com a bola entre eles.

O “futebol de autor” (e de “culto”) da Espanha, abalou a última década. Diria, até, que eles “roubaram” mesmo o jogo tradicional ao resto do mundo e passaram a jogar “outro tipo de futebol” que só eles entendem. Chamem-lhe “tiki-taka”. O nome é engraçado e faz justiça ao passe que é a essência desse estilo. E ganharam tudo com ele.

Mas, nada dura para sempre. A ideia permanece mas não é fácil encontrar sempre sucessores para a sublimar. O que turva hoje o belo jogo espanhol não é o adversário ou forma dos jogadores. É o tempo. Essa inexorável passagem dos anos que envelhece o corpo futebolístico (ritmo e intensidade) de Xavi. Os filósofos do “balompíé” mantem-se firmes, mas já procuram outras estradas para caminhar. A entrada de Diego Costa pode ser um perigoso desvio conceptual porque é um jogador no oposto do “toque”. Onde os espanhóis querem tabelar e passar, ele quer desmarcar-se e correr. Mais do que ter dois planos de jogo, está em causa o estilo dum jogador (o ponta-de-lança que, tantas vezes, nem existia no modelo espanhol, tirando a aculturação de Torres) poder turvar um estilo coletivo. Um jogador mais “crescido” pode melhorar a imagem no ecrã mas dificilmente o filme será o mesmo.

A Holanda meteu o seu estilo idolatrado desde há décadas por entre um debate de sistemas: jogar com 3 defesas/centrais ou manter o 4x3x3? Em qualquer versão Van Gaal tem é de decidir como quer começar a jogar e meter o elemento mais culto táctico-tecnicamente à frente da defesa. Perdeu Strootman, é impossível que, nesta dinâmica, seja De Jong (um trinco duro) e Blind não tem tanta visão de jogo. É um problema, sem dúvida.

O “ENIGMA NEGRO”

A estreia de uma seleção africana no Mundial carrega sempre consigo uma aura de mistério. Penso, claro, na “África negra”, aquela onde o futebol corre descalço e puro. A maioria das suas estrelas já jogam, porém, nas Ligas Europeias. Não estão, no entanto, muito diferentes na mentalidade com que aparecem nas seleções. Porque, no fundo, na raiz, o atraso estrutural permanece. Tacticamente, cresceram a defender (e, neste ponto, atenção, acho que o Gana é a seleção africana melhor defensivamente).

Das “seleções negras” deste Mundial, hoje estreia-se os Camarões. Já houve um tempo em que os adeptos do futebol pensavam que aquele era mesmo o único país africano e Milla vivia lá sozinho sem mais ninguém. Talvez com alguns leões à volta, no máximo. Hoje, sabem que é uma equipa. Eto`o já não é a gazela de contra-ataque, mas continua predador de espaços curtos. Não sei se aguentará um Mundial. Mas de quem gostei de ver nos particulares foi o ala direito, Moukandjo. É rápido e vai sem medo para cima dos defesas. Merece mais do que andar escondido na II Liga francesa, no Nancy. Acho que é uma boa forma de começar a descobrir o “enigma negro” africano deste Mundial.