“Papá, porque somos do Atlético?”

01 de Junho de 2016

Numa altura em que não ganhava nada, o At. Madrid lançou anos atrás um anuncio para angariar sócios do mais curto e sublime já visto.

Era uma cena em que o pai conduzia tranquilamente o carro quando, ao parar num semáforo, o filho pequeno sentado no banco de trás, pergunta-lhe: “Papá, porque somos do Atlético?”.

O pai, surpreendido, olhando pelo retrovisor não sabia o que dizer, porque não tinha respostas com títulos para lhe dar. Tudo termina apenas com o símbolo do clube e o ecrã cheio com uma frase “Não é fácil explicar, mas é algo muito, muito grande!”.
A intenção era traduzir em poucos instantes o sentimento de ser do At. Madrid através de uma realidade/sentimento que nos assalta quando somos miúdos e que se tornou célebre em gerações de adeptos “colchoneros”.
Com as vitórias na Liga Europa, Liga e Taça, o anuncio foi atualizado com o miúdo dizendo “agora já sei porque somos do Atlético” mas não era necessário. O primeiro anuncio já fora dera a melhor (e única) resposta.

Recordei este anuncio (o primeiro, desde logo) no fim da Final da Champions desta semana em que o At. Madrid voltou a perder dramaticamente o titulo (vendo o Real conquistar a 11ª da sua história). A sucessão de grandes planos que então a transmissão dos seus adeptos, novos, velhos, mulheres bonitas ou barbudos gordos, dava de todos de olhar perdido, chorando e/ou aplaudindo os seus jogadores era a expressão de como ser do Atlético é um poema de sofrimento.

Simeone não quis falar em injustiças, Essa conversa não faz sentido no futebol. Nessa forma de sentir o futebol ele incorporou na perfeição o sentimento “colchonero” de “viver o jogo”, ganhando ou perdendo. Neste jogo, a equipa, que falhou a intenção inicial de “pressionar mais alto”, até invertera em campo a identidade das equipas.
Obrigou o Real a baixar as suas linhas e, durante a maior parte do tempo, atacou com mais posse de bola e não só no contra-ataque (dinâmica que, ironicamente, ficara para o Real que, assim, quase matava o jogo).

carrascp-beijo

A alternância de domínio/controlo teve uma explicação táctica mais... um jogador.
Se, na primeira parte o 4x3x3 do Real mandou pela forma como Modric e Kross (interiores do triângulo do meio-campo com Casemiro pivot) pegavam na bola, espaços e jogo a meio-campo, frente ao 4x4x2 clássico do Atletico, na segunda parte, foi a mudança para 4x3x3 de Simeone com Saul e Koke, antes alas, agora “por dentro” (interiores à frente de Gabi pivot) que travou o mesmo sistema de Zidane, promovendo um “jogo de pares” nessa zona central que tirou a bola e o jogo de Modric-Kroos, obrigando-os a recuar e todo o Real a jogar com linhas baixas.

O jogador-chave do resto da explicação foi Carrasco. Descobre como sair desde trás a partir da faixa como se descobrisse fugir taticamente por um “buraco da fechadura na organização merengue”. Fez o golo e uma sucessão de jogadas fantásticas (entre elas, uma saindo fora do campo, para beijar a namorada linda).
Mesmo em dificuldades para ter bola e fisicamente estourado, o Real soube, porém, entrar no chamado “modo gestão do jogo” e controlá-lo não deixando esse espírito superior colchonero crescer para cima da sua área. Foi dos jogos em que Bale e o próprio Ronaldo mais recuaram a defender (e sentiram mais o desgaste físico).

A ameaça dos penáltis parecia, porém, como estivesse a levar o At. Madrid para a berma do precipício do seu destino.
Todos foram bem marcados mas o de Juan Fran foi tão “puxado” que... bateu no poste. A seguir, claro, Ronaldo não falhou e festejou de forma muscular para fazer as capas dos jornais do dia seguinte. Os estados emocionais mais opostos ao mesmo tempo, em lados diferentes. O futebol é uma história interminável.
Este Real, equipas e história, foram feitas para viver ao lado da Taça dos campeões Europeus. É como se tivessem nascido uma para o outro. De Di Stefano a Ronaldo, passando por outras gerações.
Não é fácil de explicar, mas (o futebol) é mesmo algo muito grande!

realchampions

 

papa

http://www.planetadofutebol.com/planeta/papa-del-atleti/