Para o resgate de ADN, o “treinador de confronto”

03 de Junho de 2016

Não sei o que levou o FC Porto até Nuno, mas com esta opção cumpre um trilho essencial para o resgate do ADN: o perfil do “treinador de confronto”, entendido no sentido de regressar às raízes, desde logo através duma postura portadora, no discurso e no método, dessa voz firme e permanente de contrapoder em relação aos grandes de Lisboa. Um treinador-catalisador da palavra “carácter” em todos as intervenções. É um perfil que começa nas conferencias de imprensa e termina (ou tem transfer) na forma da equipa (os jogadores em cada jogada) estar em campo.

Esta questão da atitude competitiva é, claro, importante, mas quando se contrata um treinador, por mais que endureça o discurso com o código genético do clube, o que se contrata, no futebol moderno mais do que nunca, é o seu modelo de jogo. Isto é, após identificado o “perfil de confronto”, o decisivo será a forma de jogar da equipa e jogadores escolhidos de acordo com essa ideia, capazes de a tornar operacional.

Em relação ao que foi Nuno em termos de modelo no Rio Ave e Valência, notou-se (salvo as devidas proporções), como visão-macro, uma atenção prioritária dada à organização defensiva em termos de comportamento táctico das linhas mais recuadas, defesa e meio-campo. É uma visão que, pegando sobretudo no caso do Valência, se pode fazer, até pelo perfil preferencial dos médios escolhidos, sempre mais “rochosos”, com a tal “intensidade nos espaços”, preparando o momento da bola lhes chegar, quer para o corte quer para sair a jogar.

Neste contexto, sem definir as suas equipas como de contra-ataque, foram essencialmente equipas de exploração dos espaços vazios detectados (ou provocados) nos adversários. Na base, a capacidade em “estudar taticamente” os quatro momentos do jogo atrás da linha da bola, até descobrir o momento certo para a transição ofensiva (ou contra-transição) e consequente entrada na organização posicional atacante, feita preferencialmente em ataque rápido.

nuno

No FC Porto o desafio que se coloca é assumir mais um modelo em que os princípios de organização ofensiva em posse terão de estar mais presentes como base, porque será nesse momento do jogo em que (ao contrário do que sucedeu nos clubes anteriores) passará a maior parte dos seus jogos (salvo questões estratégicas mais aplicadas em jogos internacionais).

É a dimensão-normal de modelo de jogo “equipa grande” no contexto especifico do futebol português e, neste caso, dum FC Porto em busca do resgate da identidade dominadora (na atitude dos jogadores e na postura táctica da equipa em campo).

Neste cruzamento, de discurso e jogo, estará o novo treinador do FC Porto, ao qual a “pele de Nuno” (mesmo em imagens de arquivo como jogador) encaixa na perfeição para o arranque do plano de resgate do ADN azul-e-branco.

Rui Vitória e Jesus não irão ter este desafio de construção “fora do relvado”. Naquelas que serão as suas segundas épocas no Benfica e Sporting, essa identificação, cada qual no seu percurso específico, também estiveram envolvidos em processos de resgate de identidade. Jesus na criação de um “novo Sporting”, que também buscou nessa “postura de confronto” uma força que se estendesse à sua equipa em campo. Rui Vitória, mais apanhado num processo de solidificação desse resgate já feito antes, mas que queria provar ter uma existência supra-treinador, que o impulsionara nas épocas anteriores (Jesus, claro). Tal, porém, só seria possível de conseguir com a competência do novo treinador, mesmo que ele (Rui Vitória) tivesse o perfil exatamente oposto a esse cenário de conflito. Assim foi.

Teremos tempo para voltar a todos estes debates. Agora, é tempo de começarmos a “sonhar em francês”.