PEKERMAN: O Vendedor de sonhos

12 de Julho de 2002

PEKERMAN O Vendedor de sonhos

Debater sobre qual é o treinador indicado para a selecção argentina é aceder a um exercício dialéctico que confronta diferentes ideologias futebolísticas. Como diria Menotti, uma maneira de jogar, traduz-se numa maneira de pensar.

Sendo assim, o seu duelo táctico-filosófico com Billardo, como antes teve com Zubeldia ou Griguol, tornou-se uma referência para os «teóricos da bola». De um lado, os adeptos do belo jogo, ofensivo e espectacular. Do outro, os resultadistas, adeptos do realismo e da ditadura táctica. Menotti, em 78, e Billardo, em 86, são os dois únicos técnicos argentinos campeões do mundo. Depois deles, sucederam-se Basile, Passarela e Bielsa. Nenhum disse claramente qual escola seguia. Falaram no compromisso táctica-espectáculo e acabaram presos numa encruzilhada estílistica que impediu a construção de uma ideologia de jogo e de uma mentalidade forte indispensável a um onze órfão de Maradona desde 94. Ao pensar no novo seleccionador, Grondona pensa em ambas as correntes. Falam-se em vários nomes. O preferido dos hinchas é Bianchi, mas para os puristas do belo futbol, o eleito seria um profeta do futebol-arte: Nestor Pekerman, mais do que um simples treinador de futebol, um autêntico vendedor de sonhos. Quando, nos anos 90, o jogo das selecções jovens, espelho do futebol adulto, perdera encanto e tornara-se demasiado duro, ele foi quem reconstruiu o seu genuíno estilo técnico e artístico. Chamaram-lhe o regresso do futebol tierno. Pelas suas mãos passaram as mais belas estrelas do actual futebol gaúcho, tecnicamente por si moldadas: Saviola, Sorín, Samuel, Aimar, Riquelme, etc.

Em 2000, recusou a selecção principal, indicou Bielsa e preferiu ficar como coordenador geral, continuando a descobrir e formar os seus pibes mágicos. Hoje, mais do que nunca, o futebol necessita de homens como Pekerman, capazes de pôr um marco ideológico que nos permita resgatar as suas raízes emocionais, mentor da fantasia e do chamado futebol dos três G: gaña, gusta e golea, porque o bom futebol é sempre produto de uma superioridade moral e ética sobre os adversários. Escolhendo Pekerman escolhe-se, mais do que um projecto táctico, uma ideia de futebol, uma brisa de ternura futebolística combatente da insensibilidade dos tacticistas sem alma, os tais profetas do futebol moderno.

O projecto de Carlos Bianchi

PEKERMAN O Vendedor de sonhosNa escolha do novo seleccionador argentino surgem duas frentes de combate: uma, nos media, onde cada um diz o que pensa. A outra, no relvado, onde, se defende, na prática, uma ideia de futebol. Entre os nomes falados, estão, com poucas probabilidades, Ramon Diaz, Rugeri e Cuper, discípulo de Griguol e por isso da escola resultadista. Outro nome é o de Omar Pastoriza, regressado de treinar, com grande sucesso, a Venezuela, e actualmente no Chacarita. Sabe-se que Grondona sempre gostou dele, mas os dois homens que dividem o país são Bianchi e Pekerman. Ambos tem, no entanto, personalidades e trajectos muito distintos.

Bianchi, vencedor de 3 Copas Libertadores com Boca Juniores e Velez Sarsfield, é o clássico treinador de clube. Pekerman, campeão do mundo Sub-20 em 95, 97 e 2001, é um formador, um mito entre as camadas jovens. Pelo sua experiência e perfil, Bianchi, antigo goleador do PSG nos anos 70, parece mais adequado para o cargo. Tacticamente e no estilo, ele é o típico treinador sul americano que diz renunciar a sistemas de contra ataque, considerando-os uma vergonha que muitas fortes equipas europeias utilizam. O seu modelo táctico varia em função das qualidades dos jogadores. Prefere o 4-3-3, mas para tal são necessários avançados habituados a trabalhar na recuperação de bola. Sendo assim, no Boca e no Veléz, utilizou, sobretudo, o 4-4-2, com personalidade a meio-campo e grande presença física a todo o terreno. Contra ele apenas tem, neste momento, a hipnotizante aura de alquimista de Pekerman.

Em confronto, porém, mais do que duas propostas tácticas ou estéticas, estão duas formas de viver o futebol. Na mente de Pekerman estará, por certo, o medo de que o cruel mundo do futebol adulto guilhotine, num ápice, a sua aura mágica adquirida nos juniores. Com o alquimista de Vila Dominguez, regressam os maravilhosos vendedores de sonhos. É um projecto utópico nos tempos que correm? Pois é exactamente disso que o futebol, como a sociedade, necessita. Que a utopia comande a vida...