PENSAR FUTEBOL: JOGADOR E TÁCTICA

30 de Julho de 2014

Após a vitória sobre o Brasil, Van Gaal disse que com o sistema adoptado mostrou que podem existir novos caminhos para o futebol holandês e não só o 4x3x3 como é tradicional nas suas equipas/seleções. Tal nunca esteve em causa. Nem as tendências que se procurem num Mundial devem ter referência meras estruturas num papel. O problema ou vantagem é depois os jogadores moverem-se. No caso de Van Gaal foi mesmo vantagem. A equipa soube quase sempre o que fazer e no momento certo.

O que este Mundial disse, claramente, é que chegam mais longe as equipas que se organizam melhor. Independentemente do sistema. Por tendência, não vimos equipas com grande intensidade de pressão sem bola. As equipas, no geral, quando perdiam a bola preferiram recuar um pouco e preocupar-se, sobretudo, em reorganizar os seus posicionamentos em cobertura. Ou seja, é muito importante ter a bola, mas cada vez mais é mais importante saber perder a bola.

Para a Holanda mais do que o 3x4x1x2, o novo caminho-Van Gaal foi um modelo de jogo diferente. Mais em profundidade do que apoiado. É legitimo. Não existe só uma forma de jogar bem (e existe pelo 1001 de ganhar). O que se questiona é até onde isso (a mudança de modelo) pode fazer avançar o futebol que, na abordagem táctica do jogo, mais fez evoluir (e revolucionar) o futebol da era moderna (desde os anos 70, pós era-antiga húngara). Sinceramente, não vejo onde.

O que fica, porém, claro é que para alguns jogadores esta mudança foi ideal. O que mais se divertiu foi Robben. Porque se antes jogava numa faixa como extremo (na direita, fazendo sempre a mesma jogada, puxando diagonais para o remate canhoto; na esquerda, jogando mais verticalmente). Solto na frente (com Van Persie) foi um “vagabundo voador” que explodiu com qualquer defesa deste Mundial. Teve, claro, mais dificuldade com equipas que, em bloco baixo, lhe retiravam espaço. E nessa ultima constatação voltamos ao inicio do primado tático deste Mundial, equipas grandes ou pequenas: organização, saber perder a bola e enfiar a equipa no mais curto espaço de terreno (á frente ou atrás).

ESCOLHER COMO... PERDER

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Gosto, especialmente, de olhar para como as equipas.... perdem. Porque é nesses momentos que vês verdadeiramente a personalidade da equipa. A forma como escolheu jogar. O México fez de cada jogo uma exibição heroica. Laterais e médios “corre-caminhos”, avançados que gostavam de ter a bola para jogar e não para correr atrás dela. A Costa Rica dos três defesas e dos três avançados foi a equipa mais truculenta do mundial. Das mais organizadas e atrevidas, também. A Colômbia deixou sempre um aroma de bom futebol, sedutor. A Argélia fazia de cada momento com bola um ato de coragem com talento. Uma geração que toca, joga e ri-se para o jogo. Estas quatro seleções, à sua maneira, e aos meus olhos, também ganharam o Mundial.

Voltei a ficar decepcionado com as confusões permanentes em que se metem as seleções da “África negra”. A Rússia foi sempre uma seleção sem voz própria, receosa, que tinha a bola e ficava em câmara lenta. A Itália não consegue libertar-se de ver o jogo com dramatismo. E caiu agarrado a ele. Estas são apenas algumas notas. Amanhã, por fim, voltaremos ao balanço final