PETROLINA E MANDUCA: «Arquitectos» brasileiros

12 de Outubro de 2004

PETROLINA E MANDUCA «Arquitectos» brasileiros

A sua forma de conduzir a bola faz recordar, por vezes, outro Juninho, o Paulista, hoje na Escócia, no Celtic. O estilo destemido e táctico como muitas vezes o faz, recorda, ao mesmo tempo, outro Juninho, o Pernambucano, pivot do Lyon. Foi exactamente para não ser confundido com esses outros Juninhos que, no Brasil, ficou conhecido como Juninho Petrolina, onde jogou sempre em clubes da I Divisão (Sport Recife, Atlético Mineiro, Vitória da Bahía e Santa Cruz). No losango azul de Carvalhal ele é, salvo as devidas proporções, o Deco do Belenenses.

Ousada comparação? Pode ser, até porque Petrolina já irá fazer 30 anos em Dezembro e, apesar da intimidade que revela com a bola nos pés, nunca conseguiu dar o salto para um clube de maior dimensão, daqueles que jogam para ganhar títulos. O temperamento ou a irregularidade exibicional (ligado á desmotivação que pode atacar o seu futebol quando inserido numa equipa “pequena”, a pensar sobretudo em não descer de divisão, como sucedeu em três épocas no Beira-Mar), podem explicar um pouco das razões porque o seu belo futebol se acende e apaga sem explicação lógica aparente.

Quando se fala tanto em Jorginho como possível reforço do Benfica em Dezembro para colmatar a falta de um playmaker no onze da Luz, o valor do futebol de Juninho Petrolina merece que se abra um debate para saber se não seria antes ele o homem indicado para ocupar esse posto. É que vendo-o a correr com a bola, com a técnica metida na velocidade, aliando a finta ou mudanças de ritmo imprevisiveis, culminada com precisos passes de morte executados pelos seu pé direito iluminado, fica sempre a bailar na mente o enigma de saber porque razão este talento nunca explodiu em palcos de mais reluzentes.

O futebol é, de facto, um mundo de enigmas. Não faltam, por todo o mundo, casos de jogadores que suscitam análise semelhante, sobretudo na fase mais avançada da carreira, quando quase já jogam de “memória”. O caso de Juninho Petrolina é, porém, de fácil resolução. Trata-se, afinal, apenas de falta de visão de estratégica, algo que não faltpu a Carvalhal na hora de o colocar no vértice ofensivo do rombo do seu Belenenses. Se gosta de bom futebol, já sabe, portanto, o que fazer.

Procure este fim de semana um jogo do Beleneses e siga, atentamente, os passos de Juninho Petrolina.

Manduca, o ilusionista canhoto do Maritimo

PETROLINA E MANDUCA «Arquitectos» brasileirosO mesmo prisma de análise utilizado no caso de Petrolina pode funcionar como ponto de partida para reflectir sobre o futebol de outro playmaker brasileiro a brilhar no nosso campeonato: o esquerdino Manduca, estratega do Maritimo. O seu jogo de rendas largas, feito de passes e diagonais desconcertantes, cruzando por gestos técnicos de luxo, mora hoje na Ilha da Madeira, depois de passar seis épocas nas divisões secundárias, pelo Felgueiras, Esposende e Chaves. É o tipo de jogador que parece ter olhos em todo o corpo. Quando sai dos seus pés, a bola leva sempre a lição bem estudada. É como se ganhasse vida própria e passasse a conhecer apenas os caminhos da baliza adversária. Em Guimarães, ao parar a bola no peito e, sem a deixar cair, fazer um meigo e açucarado chapéu a Palatsi, fez um golo “maradoniano”, daqueles que parecem marcar outro ritmo no jogo que só ele, o mágico Manduca, é capaz de controlar.

Não é um velocista, nem corre tanto com a bola como o transportador Petrolina, mas faz toda a equipa girar só de tocar na bola. Chama-se a isso classe. Aos 24 anos, tem a carreira toda á sua frente. Quem o contratar leva uma verdadeira pérola do atlântico.

No Braga, o outro “timing” de Jaime

Noutro plano, falando ainda de um playmaker brasileiro do nosso campeonato, cite-se outro tecnicista cruel para os marcadores adversários: Jaime, nº10 do Braga. Com a bola, parece como se estivesse a brincar com a bola no jardim de sua casa. Túneis, domínio carinhoso e toques de veludo. Falta-he, porém, velocidade para dar verdadeira dimensão competitiva a esse futebol, o que se nota sobretudo devido ao facto de jogar demasiado recuado, em zonas do terreno onde esses seus gestos não podem fazer a diferença. Talvez por isso, Jesualdo Ferreira, no último jogo contra o Rio Ave, colocou-o mais adiantado, atrás do ponta de lança João Tomás, num sistema de 4x1x3x1x1, no qual Jaime era o criativo vagabundo, sem tarefas de marcação, que dava cor aos ataques arsenalistas. Fez um golo e deu lições de técnica com a bola nos pés, mas continuou preso a um ritmo demasiado lento. Aos 25 anos, será difícil adquirir outro timing de jogo.

A sua forma de tratar a bola merece, no entanto, que se lhe tire o chapéu. Sem velocidade, porém, não atinge o mesmo nível dos outros dois playmakers brasileiros – Juninho Petrolina e Manduca- a brilhar em Portugal, sobretudo o arquitecto do Beleneses, claramente com valor para, a partir de Janeiro, passar a jogar para o titulo...