COPA AMÉRICA 2015 Dia 17

31 de Julho de 2015

Derlis e a transformação do Paraguai

Sem o homem, Ortigoza, que carrega a equipa às costas, Ramon Diaz resolveu dar uma nova face aquele espaço do meio-campo. Também sem Ortiz, pensava-se em Molinas (que jogara com o Uruguai), mas em vez de manter esse perfil defensivo do duplo-pivot, inseriu antes Aranda, mais ofensivo do que os “pica-pedra” habituais.

O onze nunca perde a noção que a sua maior força é a solidez defensiva (estilo e estratégia), mas com esta opção mais dois avançados na frente (Valdez-Roque Santa Cruz) e alas rápidos a sair (Benitez-Derlis), a equipa ganhava outra cara pós-recuperação da bola.

É conhecido que, por norma, joga sempre com alas abertos, mas na maioria do tempo eles destacam-se sobretudo pela disciplina como recuam a defender/fechar os seus corredores perto dos laterais, mal perdem a posse. Contra o Brasil, viu-se outro tipo de alas, com EL Pajaro Benitez a surgir muitas vezes por dentro, criando rupturas nos volantes brasileiros (caindo em cima do espaço de Fernandinho) e, sobretudo, Derlis González, solto para meter uma “segunda velocidade” no jogo em contra-ataque.

COPA-AMÉRICA-2015-DIA-15Derlis é hoje dos avançados que mais rapidamente consegue dar profundidade ofensiva a uma equipa nas costas da defesa adversária. Tem essa capacidade no centro, indo para o golo, como na faixa, em verticalidade pura para depois centrar. Nesse momento/gesto marca a diferença através de um traço muito simples: ele não se limita a meter a bola na área, ele centra/passa a bola para os avançados que estão na área.

O golo acaba por nascer de um lance destes em que Tiago Silva se assustou e meteu mão à bola. Foi então que apareceu outra face do velocista guarani: a frieza. A forma como marcou os dois penaltys decisivos (o 1-1 e o último no desempate) mostra como o crescimento dum jogador, por mais que corra e finte, faz-se da cabeça para os pés.

Derlis joga hoje melhor, na mesma velocidade alta, porque controla melhor o que quer fazer. Na razão e na emoção. O controlo emocional (base mental da eficácia técnica do remate) com que marcou os penaltys disse tudo da matéria de que é feito hoje o seu futebol.

O destino de Firmino

O Brasil (“dungazização” e queda) merecem análise profunda, mas contra o Paraguai, um jogador meteu-se no debate: Firmino. Jogou no centro do ataque e nunca conseguiu furar o muro guarani. Nunca o vi, aliás, com características para viver no “espaço 9” a este nível, gosto mais de o ver desde a ala, embora no Hoffenheim, num contexto menos exigente, tenha explodido a partir do centro.

O estatuto de “jogador de seleção” não pode nascer assim tão facilmente. A sobrevalorização do seu futebol sofrerá o inverso, porque a partir de agora, em todas as análises, vão-se lembrar do que custou ao Liverpool: 41 milhões.

No fundo, nada disto (titular na seleção a 9 e preço da transferência) fazem sentido para Firmino. Não está em causa o seu valor. Finta bem, recebe de costas e vira-se rápido com a bola. Está em causa fazer dele uma peça essencial no onze a este nível mais alto. O estranho, porém, é que não o vejo como um ator secundário numa equipa. Vejo-o como protagonista. A questão é querer fazer o transfer imediato do nível-Hoffenhaim para o nível-seleção/Liverpool.