Pode uma jogada valer mais do que um jogo inteiro?

21 de Setembro de 2014

Uma sprint com mudanças de velocidade e finta incorporada. Uma má opção de passe e um alivio falhado. Duas situações de jogo tão opostas que nem parecem pertencer ao mesmo nível competitivo. Mas acontecem. E ambas resultaram em golo. E pelo impacto que tiveram, também decidiram resultados. O primeiro lance é um “solo de futebol serpenteado” de Brahimi. O segundo é um “diálogo falhado” entre a dupla de centrais Sarr-Mauricio.

FC Porto e Sporting estrearam-se nos grupos da Champions em jogos que mandaram frente a adversários (Bate Borisov e Maribor) distantes da verdadeira elite. A análise ao jogo colectivo de cada uma das equipas não pode, claro, ser devorada por um lance individual (genial ou ruinoso) mas o resultado do jogo pode. É neste ponto de possível (e constante) divergência que o futebol se torna, no fim dos 90 minutos, depois tão difícil de perceber para o comum do adepto meramente resultadista.

O Sporting que jogou na Eslovénia é uma equipa em claro processo de construção/crescimento que está, muitas vezes, a chocar com as suas naturais limitações individuais e coletivas atuais. Nunca fui de procurar explicações em questões de inexperiência. O miúdo Zahovic fez um “golo de rato” que se fosse feito por um nº9 na casa dos 30 diziam que resultava da sua experiência em adivinhar jogadas. Não é assim. O que futebol faz a base da qualidade e das opções (boas ou erradas) que se tomam no jogo. Os pases, os arranques, o remate, o corte.

No lance do golo “maradoniano” de Brahimi há um momento, no arranque do contra-ataque, em que Adrian se desmarca e lhe pede a bola. Se tivesse feito o passe (natural) a jogada seria outra. Brahimi tem, no entanto, “mais futebol” na cabeça e está neste momento autorizado (até na motivação) para o fazer/tentar. Seguiu para a baliza e marcou. A opção tornou-se certa porque o jogador a soube construir.

O golo sofrido pelo Sporting arrepia mais ao ver-se o corte falhado pelo Maurício (gesto técnico falhado) mas o a opção errada é o passe de Sarr que o seria sempre, embora nem surgisse nos resumos se Maurício acertasse aquela bola e a mete-se longe do perigo.

Ou seja, cada jogada é um “alçapão” onde pode cair o melhor jogo de uma equipa. Outras vezes também pode funcionar ao contrário e criar ilusões.
Ainda não se detecta claramente o que Marco Silva quer para o seu Sporting. Se uma equipa de posse, entendida no sentido que no momento de construção de jogo (transição/organização ofensiva) queira circular, trocar a bola e ir assim desmontando defesas adversárias. Ou uma equipa que busque mais rapidamente a profundidade dos seus alas rápidos, saltando a excessiva burocracia do passe/posse a meio-campo.

Poderá ser um compromisso entre os dois, mas a equipa necessita decidir um caminho táctico em termos de modelo. Neste momento, sentindo muitas vezes esta indefinição em muitas saídas de bola para o ataque, vejo que o jogador que fica mais preso nesse “limbo conceptual” de modelo é Adrien. É por aqui (e por ele) que vejo a chave para reabrir o melhor jogo leonino. Acho André Martins uma falsa questão. O jogador que a equipa necessita, novamente, que pegue nas ideias e opções de jogo da equipa é Adrien, o pêndulo (hoje ora recuado ou fora da linha da jogada) que lê o jogo.

O futebol está feito de uma infinita quantidade de varáveis. Para cada treinador, nem sempre as prioridades são colocadas da mesma ordem. Enquanto as equipas não as incorporam, muitas vezes mais do que lutar contra o adversários, lutam contra elas próprias.

DESTAQUE:
Através da visão internacional, a observação à evolução do Sporting e do “limbo táctico” em que sinto, muitas vezes, o bom futebol de Adrien estar muitas a cair