Por mares já antes navegados…

05 de Junho de 2008

Imagino as equipas como seres vivos. De rosto humano, claro. Nascem, crescem, vivem, envelhecem e morrem. Aplicada a um clube, esta tese espelha-se num grupo de jogadores que inicia um projecto, desenvolve-o e, por fim, esgota-se com ele. É natural. Faz parte dos estímulos humanos que aparecem e desaparecem, porque, como dizia Ortega y Gasset, somos sempre “nós e a nossas circunstâncias”. Aplicada a uma selecção, esta ideia cruza-se com as referências de uma geração. O lado puramente futebolístico e as circunstâncias do país que o envolvem.

Imagino um país como um ser supra-terreno que abriga gerações sucessivas. Acarinha-as, protege-as, sufoca-as, degola-as. O futebol coexiste por entre todas estas atmosferas. Portugal é um país construído com fogo que arde sem se ver. A história da selecção nacional ao longo do século é feita no cruzamento de vários modelos e referências. Nos anos 80, ainda sentia os ventos da longa travessia do deserto dos anos 70 onde caminharam Oliveira, Alves ou Humberto. Era difícil saltar-mos a fronteira. Apesar de grandes tecnicistas, os médios portugueses jogavam com pezinhos de cetim e raramente ganhavam uma bola dividida. A nosso favor só a técnica, mas sem tempo para a exibir, o que ficava? Habilidade fina, dribles e fintas às catadupas, mas uma visão curta do futebol, a quem, no campo, faltavam 30 metros para atingir a idade adulta do bom futebol.

Mentalidade ou complexo de inferioridade, por um lado. Incapacidade de colocar a nossa qualidade técnica no ritmo internacional, por outro. Até que um baixinho com “bigodão” e cabelo comprido de Astérix começou a fintar com um ar insolente mais sério. A beleza estética do seu futebol era genuinamente portuguesa. Finta curtinha, enleando e confundindo adversários. Chalana foi um símbolo de um novo tempo. Atrás de si, seguiram Jordão, Gomes, Frasco, Pacheco, Sousa, estrelas da aventura francesa de 84. Alguém tinha chamado por nós. O país e os bastidores do nosso futebol não estavam, no entanto, preparados para essa nova mentalidade. E não soube lidar com isso. Cairia facilmente nos alçapões da história, conflitos e alecrins. Mas ficara o perfume das fintas. Inspiração para Futre, cavaleiro solitário da geração seguinte que viveu numa espécie de “buraco negro” do tempo.

24 anos depois este já é outro futebol português. Nos pés de Figo e Rui Costa, desde o berço de Queiroz, jogando com a casca de ovo na cabeça, até às elites de Espanha e Itália, descobriu outra vida. No jogo e na mente. A questão do ponta-de-lança permanece, mas é um problema que, vendo bem, se estende a todo o futebol latino, onde o fundamental para o nº9 acaba por ser, mais do que os remates à baliza, a inteligência de movimentos, com e sem bola, para entender a aproximação dos médios e alas que, nas mediações da área, transformam-se todos em avançados.

É utópico dizer que Cristiano Ronaldo é o futebol português. Ele está muito para lá dessa realidade. É já “rock and rol” puro. O nosso futebol tem um ADN de “fado”. Cruzar os dois estilos seria o ideal para viver para além dos oásis e miragens que fazem a nossa história. Este Europeu, sem nenhum símbolo da geração-Queiroz, marca o início de um novo ciclo. Os novos heróis que nascerem daqui para a frente terão dificuldade em perceber o que fez tantos anos de sombras. Mas era importante não os perder de vista. Para perceberem que o problema nunca esteve na nossa identidade. Esteve antes na nossa mentalidade. O resto são as tácticas, as fintas e os remates. O elo que liga Chalana, Futre e Ronaldo.