POR ONDE PODE AVANÇAR O FUTEBOL

28 de Julho de 2014

Pergunta-se por onde pode avançar o futebol. Se está tudo inventado. Claro que não. Com treinadores a pensar e jogadores a jogar, um factor onde o jogo pode evoluir mais é na capacidade das equipas transformaram o seu sistema (e dinâmicas/princípios sequentes) durante o próprio jogo. Não falo só numa ou outra mudança posicional, mas na capacidade de metamorfose coletiva que, dum momento para o outro, coloque a equipa a jogar (mover-se) de forma totalmente diferente.

Mas, é tão difícil fazer isso de jogo para jogo, quanto mais no decorrer do próprio jogo. O Chile de Sampoli provou, porém, contra o Brasil, como essa maleabilidade é possível e, num ápice, a meio da segunda parte surpreendia ao trocar um ponta-de-lança (Vargas) por um médio mais defensivo (Gutierrez) quando precisava ir atrás do resultado. E foi. A partir dai passou a mandar no jogo.

Não só devido a essa mera troca, mas como ela implicou a mudança do sistema (e dinâmica interligada) da equipa que demostrou uma maleabilidade táctico-coletiva notável para de um momento para ou outro se transformar.

Em síntese, a troca, mantendo o 3x5x2, permitiu reforçar a zona central do meio-campo, onde estava a perder capacidade de pressão, passando a formar um triângulo de médios (Diaz-Aranguiz pivots-largos atrás e Gutierres mais subido caindo em cima de Fernandino, depois Ramirez, para travar a saída do Brasil). Na frente Vidal aproximou-se de Alexis que passou para nº9. Nas alas quem passou a dar profundidade foram os laterais, Isla-Mena que passaram a poder soltar-se desde trás, passando as suas costas a serem dobradas pelos pivots que tinham ficam atrás. Com isso, reconquistou o meio-campo e passou a defender bem para atacar melhor.

Nesta alteração, que se tornou eficaz em campo logo de imediato, detecta-se o caminho por onde o futebol (táctico dos treinadores e técnico-inteligente dos jogadores em movimento) deve avançar. Ainda há muito por inventar. Apesar de, claro, a suprema emoção continue a ser o golo ou a bola a bater com estrondo na barra no último minuto. Ganhar ou perder é outra questão

NÃO SÃO “SÓ” PENALTYS

POR ONDE PODE AVANÇAR O FUTEBOLExiste jogo mais emocionante dentro do futebol do que os 90 minutos de fintas, remates e defesas? É perturbante, mas sim. A decisão por penáltis. Ultrapassa todas as frequências de batidas do coração possíveis. Nunca admiti o termo “lotaria do penáltis”. Naquele momento jogam-se muitos mais sentimentos. Mente e técnica.

Só o tempo que o marcador demora a caminhar do meio-campo até à bola para rematar é um “thriller” que lhe transforma cabeça numa metralhadora de emoções. Imaginar tudo o possível, como bater, para que lado, medo e coragem, imaginar-se herói, a festejar, ou vilão, e viver para sempre com esse peso. Depois, a técnica de remate, para a bola ir fora do alcance do guarda-redes que então não sente a tal angustia no momento do penalty. Não, ali é o tempo de se tornar herói. Ninguém fica vilão por não defender um penalty. Mas fica por não marcar.

No fim, o mais emocionante é que, na verdade, Júlio César não parou só dois penáltis decisivos em 2014 como, na sua cabeça, também defendeu aquela bola que vinha no ar desde 2010 (onde falhara). O futebol é uma história interminável dentro de cada um de nós.