PORTUGAL ELIMINADO: A ANÁLISE

28 de Julho de 2014

O VERSO DO SELECIONADOR “TREINADOR DE JOGADORES”

Até ao fim Paulo Bento defendeu a “seleção dos seus jogadores”. Nasceu, cresceu e caiu com eles. Só no último jogo abriu um pouco essa ideia e viu-se que algo podia ter sido diferente. Porque, acaba o Mundial e pergunta-se quanto jogadores portugueses estiveram verdadeiramente ao seu nível? Nenhum. Não faz sentido.

O jogo (e a elaboração de uma equipa) pode ter, no geral, dois pontos de partida: o sistema (ocupar os espaços, movimentações, equilíbrios com e sem bola) ou os jogadores (optar pelos que lhe dão mais confiança, pelos melhores ou manter o seu núcleo de confiança). Existem, depois, claro, outras variantes. Vendo o percurso de Paulo Bento (nascer, desde 2010, crescer e chegada ao Mundial 2014) diria que ele viveu sempre estas duas ideias, nunca as deixando tornar um dilema até ao último dia (não só o jogo com o Gana como os anteriores).

Em termos simplistas, com a matriz táctica de seleção enraizada há muito no 4x3x3, a tendência de Bento foi sempre mais a de ser um “treinador de jogadores” na chamada abordagem/elaboração do jogo/equipa. E quis sê-lo até ao fim da caminhada mundialista como fica da sua última frase: “não tenho sequer tentação de ser ingrato para gente que deu tanto”.

A certo ponto, porém, tal tornou-se um dilema. Desde o “quadro de suspeições lesionais” excessivo, à quebra de forma de elementos-chave, a equipa necessitava de se libertar desse núcleo duro e receber “sangue tático novo”. (resgatar o debate da convocatória é estéril).

Paulo Bento foi com Miguel Veloso até ao fim, mesmo tendo por acabado a metê-lo a lateral-esquerdo. É uma prova de total confiança num jogador que fez todos os jogos do apuramento e fase final. Não quis, na hora da sentença final, em que todos procuravam alvos para a culpar pelo desaire, deixá-lo cair. Esta atitude foi o auge da defesa dum “seu jogador” com que Bento fez a “sua seleção de jogadores”.

PORTUGAL ELIMINADO A ANÁLISETerminado o Mundial, fica uma pergunta que nasce de um sentimento perturbante: Quantos jogadores da seleção estiveram verdadeiramente a “top”, ao seu nível neste torneio? Nenhum. Por razões várias.

Olhando os jogos com a Alemanha e EUA, há um aspecto táctico-físico chave no nosso jogo que condicionou decisivamente ambas as exibições. O nosso meio-campo pura e simplesmente não pressiona. Por desgaste, cansaço, estratégia, o que for ou tudo junto, a verdade é o que deficit de intensidade e capacidade pressionante do triângulo do meio-campo foi decisivo para a equipa nunca avançar no terreno em construção segura, nem travar os adversários de subir e criar perigo.

As mudanças feitas no último jogo com o Gana demonstraram uma diferença enorme nesse aspecto. O sistema, num ápice, melhorava os seus índices de pressão e construção depois de desmontada a menor rotação de Veloso e, sobretudo, as debilidades físicas de Meireles. William Carvalho impôs outro respeito e presença física de recuperação e circulação de bola, Ruben Amorim subiu a intensidade de pressão e também subiu no terreno e, por fim, mesmo cometendo erros, “viu-se” Moutinho. Já era tarde para agarrar o Mundial, mas o melhor futebol estava lá.

Agora sim, é tempo para conferências de imprensa e balanços. E não acreditem em renovações. O que existe nas seleções são reconstruções. É muito diferente.

Três nº9 reduzidos a “zero”

Começamos o Mundial com três pontas-de-lança. Começamos o primeiro jogo (Hugo Almeida) e segundo (Hélder Postiga) com ambos agarrados á coxa, com lesões musculares que os fizeram sair a jogar logo no inicio. Não é normal com esta frequência. Restou Éder. Entrou com o peso de uma equipa ansiosa (e desconexa) em cima de si. Claro que correu mal. O valor de Éder é superior ao que demonstrou, mas a contextualização do maior nível de exigência competitiva (local/equipa/competição) que lhe ia ser colocado em cima teria de ser feita previamente. Isso pode mudar tudo. E mudou mesmo. O jogador como se autoanulou em todos movimentos. Custa perceber porque neste jogo (não estando Ronaldo em condições de fazer a suas explosões desde a faixa) não jogou no centro a nº9. Não acredito que Paulo Bento não tenha pensado nisso. Sobretudo até porque tinha uma boa solução para a faixa, o inspirado Varela. Acredito que Ronaldo não tenha gostado que tenham sequer pensado nisso. Consequência: Portugal jogou sem ponta-de-lança contra o Gana.

A seleção “astronauta”

PORTUGAL ELIMINADO A ANÁLISE1Nos dois primeiros jogos só mesmo de lanterna em punho descobri Moutinho em campo. Ele mesmo disse que em Manaus, aos 30 minutos, já se sentia cansado. Mais perturbante, porém, foi ver o nosso nº8 mais rotativo, que avança-recua-avança sem parar, passar pelo Mundial quase imperceptível, sem chama. Não é normal Mourinho perder tantas bolas. Um problema, porém, coletivo duma peça na “sala de máquinas” do meio-campo. No último jogo sentia-se que à mínima adversidade (oportunidades falhadas, um golo do Gana) a equipa ia cair, sobretudo mentalmente. Foi o que aconteceu. Mas, nem sempre os fins das histórias trazem consigo uma moral que faça algum sentido.

No futebol, muito menos. Fomos, no fundo, todos espectadores (torcendo) de um espetáculo perturbante que não conseguimos entender. A seleção chegou ao Mundial como um astronauta chega à lua sem o fato espacial. Não conseguia respirar nem pisar o chão (neste caso a relva). Desintegrou-se e perdeu-se de vista fora de órbitra.