A pressão de jogar bem “versus” a pressão de ganhar

20 de Março de 2017

1.

O ego de um jogador de futebol é maior do que o ego de um profissional de outra actividade (ou até de outro desporto de top)? Geneticamente, não tem por que ser. Socialmente, já tem por onde ser. O poder do habitat que emoldura o crescimento.

Leio uma entrevista de Cocu ao jornal espanhol El Pais e ele, reflectindo sobre o momento de crise do futebol holandês, nunca fala no jogo, sua qualidade, como razão para os maus resultados de seleção e equipas. Fala da capacidade de aguentar a pressão: “os miúdos holandeses não entendem a pressão, os espanhóis sim”. Mas, de que tipo de pressão falava Cocu?

Apesar da falta de resultados, não existe falta de talento a nascer na Holanda. O estilo, a cultura, a forma laranja de ver o futebol não deve mudar. A pressão que sufoca na base da formação até ao futebol adulto os miúdos holandeses é outra questão. Eles aguentam bem a pressão de ter de jogar bem. Eles não aguentam é a pressão de ter de ganhar. A solução passa então por novos modelos de desenvolver jogadores, sem perder o estilo, mas mudando a mentalidade. O lado competitivo-mental do estilo, não o técnico (nem o táctico).

As gerações não se repetem, mas a genética sim. Para um jogador holandês, mesmo os caídos há pouco do berço, a palavra “defensivo” soa mal. Ao contrário de Itália onde os miúdos até no futebol de rua já queriam ser defesas e, nos escalões de formação, fazer um corte, tirar a bola a um avançado, é um motivo de orgulho. Para os holandeses, o orgulho está em passar bem a bola, no gesto técnico (fazer um “túnel”). A palavra “ofensivo” é a única que lhes soa bem, mas as exigências da dimensão internacional subiram hoje a níveis incomportáveis para ideologias tão românticas.

2.

Claro que também existe, depois no insucesso das equipas, a ultrapassagem financeira dos gigantes europeus, que lhes roubam os melhores jogadores precocemente, mas a reflexão de Cocu situava-se na criação das novas bases mentais para o talento. O futebol português também cresceu assim. A chamada “winner-mentalitat” (a mentalidade ganhadora, em tradução livre).

Não é necessário negociar o estilo para isso. É necessário negociar a cabeça que aplica o estilo. A forma de lidar com a tal “outra pressão”. A Espanha foi, na última década, a prova mais sublime de como é possível juntar os dois factores. Juntava Puyol e Xavi, e eles, jogando de forma muito diferente, pensavam (obcecadamente) da mesma forma.

A “mentalidade da necessidade” faz que um jogador (e uma equipa por extensão) não “jogue por jogar”. Cada personalidade é diferente, mas o carácter é colectivo nas grandes equipas e escolas de futebol. O estilo serve para jogar. A mente serve para ganhar. Ambos os factores vivem (jogam e pensam) juntos em campo.

Por isso, quando comecei este texto, com aquela pergunta (talvez ambígua ou intrigante) sobre o ego, falava de algo que pode ter diferentes formas de tocar um ser humano que está atado ao futebolista. Recordo, quando se fala deste tema, um grande talento do passado, um daqueles que se via ter tudo para ser um grande jogador, mas que, em campo, na competição mais dura, se “encolhia”. Quando os “estudiosos do talento perdido” se perguntavam afinal o que lhe faltava, acabaram por concordar quando concluíram que lhe faltava... ego.

O ego na medida certa de aguentar a pressão e entender que a vida e a expressão do talento não é nada sem ele (autoestima em busca de reconhecimento que só ganhar pode dar). Para isso, não é necessário negociar o estilo, só a mentalidade.

O resto da longa conversa-reflexão com Cocu toca em muitos pontos táctico-técnicos do jogo. Sistemas, modelos, extremos, movimentos. Tudo é importante no jogo, mas tudo tem sempre a “nuvem da pressão” por cima das suas cabeças. O futebol moderno só é diferente do de antigamente na medida em que a vida em torno dele mudou.