Prisioneiros dos novos tempos

12 de Março de 2008

Prisioneiros dos novos tempos

Até Eusébio estava junto ao banco, antes do jogo pisara a relva, vira-a molhada, falou em mudar os “pitons”, de alumínio é melhor para não escorregar, seguiu o jogo sempre com o olhar ansioso, preso aos detalhes, mas a mística, os ecos e a inspiração do velho Benfica, o verdadeiro, o que o tornou gigante apetecível aos olhos de todo o mundo, não são possíveis de serem transmitidos desta forma tão simples. Chalana e Rui águas, também viajantes, em tempos mais recentes, desse outro Benfica de casta europeia, também terão pensado nisso, durante aqueles longos 90 minutos, em que sentados no banco no pequeno Estádio do Getafe tentavam orientar por outros caminhos um onze encarnado que parecia correr com pesos amarrados aos pés. Missão impossível.

Camacho partiu mas os problemas não foram com ele. Como não foram quando Fernando Santos saiu. Porque os problemas do Benfica ultrapassam, e muito, a mera questão do treinador. É importante, claro, mas que “vírus” andará pelo mundo benfiquista para um espanhol que sempre foi um exemplo de raça sair dele cabisbaixo, dizendo-se incapaz de motivar os jogadores? A tranquilidade com que o Getafe, interessante mas modesta equipa espanhola viveu durante os dois jogos e eliminou o Benfica, causa perturbação. No plano táctico, Chalana tentou devolver a equipa à “casa táctica” onde se sente mais confortável. O 4x4x2 em losango. Apesar da boa intenção e da ilusão inicial, logo se viu que lhe faltavam os hábitos para jogar num sistema tão exigente. Porque antes de jogar, é preciso treinar. E não houve tempo para isso. A questão física cruza-se com a questão táctica. É a chamada forma desportiva.

Em campo, a bola deve ter um itinerário prévio que favoreça os jogadores que a vão tocar mais vezes. Sem isso, o onze nunca conseguiu meter velocidade no jogo. Andou sempre num ritmo lento. Nunca conseguiu dar profundidade pelos flancos. Deixou a defesa espanhola jogar sempre de “cadeira”. E, sem velocidade e profundidade não há losango que respire muito tempo.

Depois, quando tentou esticar-se, desequilibrou-se e, no contra-ataque, um “chapéu” espanhol matou o jogo. Por isso, questionar a qualidade individual de muitos jogadores não é um bom principio para analisar o actual Benfica. Mística é uma palavra “invisível” em termos de filosofia de jogo. É indispensável, porém, para o oxigénio do balneário. Aquela camisola “pesa”. Vejam nas cerimónias das apresentações de muitos jogadores. No início, surgem altivos, cabeça levantada. Depois, palavras de circunstância, surge a águia, a pantera, e veste-se a camisola pela primeira vez… Reparem, então, como muitos mudam Prisioneiros dos novos temposlogo o olhar e a postura, ficam de imediato mais curvados, perdem o nariz no ar e começam a sentir o seu peso que, depois, turva-lhes a vida em campo. Rui Costa saiu depois do título fantástico de 94. A época dos 6-3 em Alvalade.

Esteve 12 anos fora da Luz. Durante esse tempo, muitas referências se perderam. No jogo, no balneário, nos gabinetes. Tempestades mal resolvidas, rupturas, intrusos e feiras de vaidades.

Em 14 épocas, o Benfica só ganhou um campeonato. Impensável para um gigante. Numa temporada atípica. Rui Costa regressa e depara-se com uma Luz muito diferente. A todos os níveis. Não é fácil construir o futuro buscando as raízes de um passado que está cada vez mais distante. Não faz sentido pedir “tempo” num clube como o Benfica. Muito menos quando tem-se de recuperar tanto “tempo perdido”. Porque um gigante tem de ganhar, ou saber lutar para ganhar, “todos os dias”. O novo treinador deve ser capaz de interpretar este mundo. Quer na postura perante ele, quer através da filosofia de jogo. Os jogos, os 90 minutos, são sempre a principal referência das sentenças futebolísticas. Mas é no terceiro tempo que muitas vezes se disputam as grandes decisões num grande clube.

Voltemos à relva. Maldini vai fazer 40 anos e disse que, afinal, quer continuar a jogar. Vejo Rui Costa deslizando no campo, sem relação entre o físico e a táctica, e a seguir leio que vai passar outras funções, fora da relva. E “só” tem 36 anos. Que triste sair de um local tão lindo e quixotesco. Nos nossos relvados, ao nosso ritmo e qualidade, acho que pode jogar para sempre…