Profissão: treinador

13 de Maio de 2008

Profissão treinador

Fala-se muito de como jogou uma equipa. Fazem-se críticas, apontam-se defeitos e soluções, Esquece-se sempre, nesse debate, um ponto fundamental, talvez mais importante: como treinou essa equipa? Porque é nesse ponto prévio, que está a resposta para o que se passou em campo. E treino tem a ver, claro, com o treinador.

O futebol português foi elegendo, ao longo dos tempos, os seus treinadores predilectos. Serão ciclos, talvez. Penso antes que é incapacidade de criar referências em termos de qualidade. Por incapacidade em avaliar competências para além do resultado. No fundo, por incapacidade em perceber o futebol. E hoje, quando procuramos treinadores de referência no futebol português (tirando Mourinho ou Queiroz) ninguém aponta um ou dois nomes sem hesitar. Em todo este processo, Fernando Santos, Peseiro ou Manuel José sentiram-se forçados a partir. Tal como, embora com contornos diferentes, causa impressão ver o 7º classificado da Liga Grega vir buscar, sem esforço, um dos treinadores portugueses que mais se destacou esta época: Carvalhal.

Noutro ponto de observação da época, também Jesus, apesar dos elogios à sua astúcia táctica, também viu fechadas as portas de um grande. São justificáveis as opções dos clubes. Não faz sentido as razões que as motivam.

Os dirigentes buscam treinadores que trazem consigo um rótulo a dizer ganhador. Nenhum, porém, face ao lado movediço do nosso mercado, transporta essa imagem incontestável. O treinador do momento (como hoje Carvalhal ou Jesus) apenas o são porque estão a ganhar. Poucas épocas antes eram quase desprezados, apenas porque a bola não entrava. Tinham, porém, a mesma competência. Apenas não tinham os mesmos resultados. E o que é mais importante na hora da escolha? A competência, claro.

Ou seja, em face de como se gere o futebol português, por meras questões de ter bom curriculum (entenda-se vitórias atrás de vitórias) nenhum treinador é de referência. E, assim, queimam-se competências. E, assim, queima-se oportunidades de alguns treinadores, como Carvalhal ou Jesus, chegarem, com naturalidade, a um grande.

A aposta do Benfica em Eriksson, como todo o processo que leva à sua escolha, é um bom exemplo. Mais uma vez, busca-se contratar, antes do mais, uma imagem que renove ilusões. Um novo estado de alma motivado pela memória dos sucessos passados. O caso de Jesualdo também é, noutra perspectiva, outro bom exemplo. Atinge o máximo sucesso já no ocaso da carreira. Quando encontrou condições para tal. Para exprimir competências. Sem ser turvado pelas miragens (atracção pelo sucesso recente) e fantasmas (mitos sobre falta de liderança) que levam um clube a escolher um treinador em vez de outro. Em vez de competências, procura-se contratar ilusões. E, nesse processo, queimam-se, sucessivamente, treinadores e suas competências. Mais do que uma questão de opção, é uma questão de falta de gestão.