Prometo que vou ser fiel e amar-te para sempre

15 de Maio de 2017

1.

O que valem hoje as juras de fidelidade? Muito pouco. Na vida, no futebol, na época em que vivemos. Mas houve um tempo em que as coisas eram diferentes. No fundo, porque o mundo também era diferente. E o futebol, e forma de o viver, também.

Os mais antigos gostam de falar no velho jogar com “amor à camisola”. O futebol já não é, porém, para românticos. Os jogadores beijam hoje o emblema da camisola que vestem da mesma forma como amanhã beijam outra (camisola, claro). Não nascemos para amar só uma pessoa. Mas houve um tempo em que nascíamos para amar só um clube.

Penso nisso, arrepiando a “pele de futebol”, ao ver um mito da minha infância, o guarda-redes alemão Sepp Maier, subir ao relvado de S. Mamés para receber um galardão que o Ath. Bilbao criou para jogadores que só representaram um clube em toda a sua carreira.

Não se trata de jogadores do Bilbao. Podem vir de qualquer parte do mundo. Esta semana foi Maier que recebeu, debaixo duma ovação apaixonada no centro do campo durante o intervalo. Antes, na mesma iniciativa “one club man award” (“prémio um homem-um clube”), receberam igual homenagem Matt Le Tissier e Paolo Maldini (que se confundem com o Southampton e Milan).

Para entregar o prémio a Maier, outro mito das redes e da fidelidade, Iribar, guarda-redes histórico do Ath. Bilbao, o único clube do mundo que representa verdadeiramente uma região e um povo (sempre, em 119 anos, só a jogar com jogadores bascos). E sem nunca descer de divisão. Algo de “outro mundo” no tempo de infidelidade babilónica em que vivemos.

2.

Maier fez defesas monumentais. Era alemão no porte e no estilo. Defendia enchendo a baliza como parecia pisar a pequena área de botas cardadas. Era o chefe do exército do Bayern (onde esteve mais de 50 anos e ganhou três títulos de campeão Europeu) e da velha RFA (campeão do Mundo e da Europa).

Um monstro, porém, que caiu como um castelo de cartas quando o maquiavélico Panenka lhe marcou na Final do Euro 76 o penalty até hoje mais famoso e sórdido da história. “Foi um remate um pouco sujo, pouco desportivo”, recorda Maier entre sorrisos, ainda hoje não percebendo como se deixou enganar e não chegou àquela bola com as suas enormes luvas.

Maier não se limitava a fazer defesas. Atacava a bola e como que a fazia desaparecer quando a agarrava e escondia no seu corpo. Assustava os avançados pelo seu porte, que pensariam, “por onde a bola pode passar?”, tal a forma como o “polvo gigante teutónico” tapava todos os ângulos. Ele próprio admite que esta fidelidade a um clube foi obra dum tempo diferente e hoje dificilmente seria possível outro jogador a manter.

3.

Mesmo mitos como Raúl ou até Pelé, não aguentaram esse tempo infinito (e acabaram, por vias distintas, nos EUA, com Raul a passar antes, altivo e com classe, pelo Schalke 04).

O final da carreira, em geral, diz, mesmo aos maiores, que podem já ter lugar na história mas não na primeira equipa. Raramente aceitam e saem (mas Raul quis provar que a história podia ter sido diferente). Era um jogador de outra casta. Daqueles que hoje talvez só Totti e a sua ligação íntima com a Roma possa ser o último, duma espécie definitivamente em vias de extinção. A ameaça cresce agora com as faraónicas tentações orientais para, no fim da história, roubar o lugar da lenda que o sublime prémio inventado pelo Ath. Bilbao consagra.

O futebol atual necessita do “poder das lendas”. Dos “jogadores a preto-e-branco” ou daqueles que conseguem atravessar emocionalmente o tempo. Esta ligação a um clube é a forma mais romântica de o fazer. Pode ser impossível hoje, mas houve um tempo em que era e fazia sentido. Para todos.

Sou, por devoção, um adepto de “causas impossíveis”. São as únicas pelas quais vale a pena lutar. Como recordar Maier, Le Tissier, Iribar ou Maldini (símbolos de paisagens futebolísticas tão distintas) e ver neles a verdadeira “cara do futebol”.