Qatar: 90 minutos para (Re)criar história

25 de Maio de 2012

Qatar 90 minutos para (Re)criar história

Qatar 90 minutos para (Re)criar história

SATELITE DE FUTEBOL - HELENA COSTA

No Planeta do Futebol, a visão do satélite de futebol Helena Costa. Desde o Qatar, a sua forma de “pensar” futebol, FUTEBOL! Atmosferas e ideias, a partir de várias dimensões

Qatar X Afganistão: noventa minutos para (Re)Criar HISTÓRIA

A cultura Qatari abraça cada vez mais a prática desportiva como a melhor forma de projectar pelo mundo o pequeno “cantinho” islâmico, sendo que para isso um dos melhores trampolins foi e será o Mundial de Futebol de 2022.

A paixão que o Futebol transporta pelo mundo, o transbordar de emoções e sentimentos, vivências e mudanças sociais são como que um elixir para as diferentes sociedades. No feminino, seja em que ponto do planeta for, tudo leva mais tempo, esse tempo leva a que se criem mais desejos e mais sonhos, mais barreiras e entraves que a seu tempo se vão transpondo.

Qatar 90 minutos para (Re)criar históriaPelas dificuldades de aceitação que as raparigas e jovens Qataris enfrentam para jogar futebol de forma “exposta” à sociedade e aos media (o ocidentalmente “normal”), decidimos (Federação de Futebol do Qatar/Comité Olímpico da Mulher) apostar no aproveitamento de todas as datas possíveis do calendário FIFA para promover, no país, experiência competitiva à selecção feminina sénior.

Desta feita, sem sair de Doha, podemos à partida contar com todas as jogadoras que representam a selecção nacional, inclusivamente com as que não estão autorizadas a ser filmadas ou fotografadas. Podemos mais facilmente contar com as jogadoras trabalhadoras, que para serem bem aceites nos seus locais de trabalho, não comunicam à entidade empregadora que irão jogar. Tudo é à partida mais controlável.

Isto parece em si um contra-senso pois não há modalidade que se desenvolva sem que haja promoção e publicidade. Essa é a maior das dificuldades: publicitar algo sem “ferir” a imagem e restrição das jogadoras que corajosamente “dão” (como podem) a cara pelo país e pela modalidade. Pretendemos isso, e como tal, tudo teve e tem de ser ponderado e decidido ao detalhe: desde a escolha do adversário ao local de jogo, dos media presentes à informação transmitida. A realização do primeiro jogo em Doha assim o exigiu.

Qatar 90 minutos para (Re)criar históriaTendo em conta as funções políticas de pacificação e conciliação que o Qatar assumiu e promove ultimamente no Médio Oriente e no Mundo, tendo também em conta o momento em que ambas as selecções se iniciaram, a sua experiência competitiva, o seu posicionamento no Ranking FIFA (embora em minha opinião as últimas posições do ranking não traduzam o verdadeiro valor das equipas), considerando o esforço que a FIFA, a AFC e todo o mundo tem feito para auxiliar o desenvolvimento do seu futebol feminino, o Afeganistão foi o adversário escolhido.

Como seria de esperar teve grande impacto: embora fosse o quarto jogo oficial da selecção do Qatar, era o primeiro jogo oficial de futebol feminino realizado no país! Foi motivo de notícia na capa dos jornais, mesmo nos generalistas, e logo contra o Afeganistão que surpreendeu o país por também ter uma Selecção de Futebol Feminino.

Esta aventura oriental tem sido riquíssima, uma experiência de vida! Contactar com a realidade afegã fez-me pensar muito. Futebolisticamente ambos os países têm o mesmo objectivo e enfrentam, por motivos diferentes, algumas das mesmas dificuldades: o Futebol é um fenómeno que me tem escancarado sociedades tão dispares!

O Afeganistão era uma equipa que devido a todas as circunstâncias político-sociais, bem como o tempo de existência (desde 2010), podiam levar a crer que tal como nós, seriam igualmente uma equipa inexperiente e do mesmo nível competitivo. Não tivemos acesso a registos de jogos anteriores, quase nada existe. Surpreendentemente sete jogadoras viajaram directamente de S. Francisco (EUA) para o Qatar: são Americano-Afegãs de famílias que sempre viveram por lá, algumas de famílias que emigraram para fugir ao Regime Talibã com histórias de vida fabulosas, ou que simplesmente depois da intervenção Americana no Afeganistão optaram por estudar além fronteiras. Todas estão abrangidas por um programa de cooperação para o desenvolvimento do futebol feminino, jogam em Universidades e equipas Americanas. São jogadoras de grande qualidade, curiosamente todas jogaram no corredor central, preenchendo com experiência, disponibilidade física, competência táctica e excelente técnica o preciso espaço que mediou entre as ambas as balizas. Marcaram a diferença no jogo: um meio-campo com qualidade para ser titular em equipas europeias!

Qatar 90 minutos para (Re)criar históriaAs restantes jogadoras da equipa têm sido alvo de Apoio das Federações alemã e Norueguesa, participando em estágios e programas de treino na Europa. Viajaram de Kabul para o Qatar e treinam diariamente no estádio onde ao longo de anos foram obrigadas a assistir a enforcamentos e massacres públicos. O estádio de Kabul foi escolhido para tal pelo regime Talibã por ser um espaço grande, onde se podiam concentrar um elevado número de pessoas, que ao assistirem a tais torturas, gravariam nas suas memórias as causas desses julgamentos, não arriscando a realizar o mesmo posteriormente.

E gravaram! Dizem ser impossível esquecer esses episódios, apagar memórias e medos tão recentes, mas entre isso e não jogar futebol, preferem abstrair-se! Dei comigo a reflectir que só o Futebol provoca estes sentimentos: como conseguem jogar no mesmo espaço? A paixão pelo jogo move aquelas jogadoras: onde actualmente a bandeira é orgulhosamente hasteada, milhares foram enforcados. O Futebol consegue esbater um turbilhão de sentimentos negativos, transpõe emoções tão positivas que anulam as demais. É esta a magia deste jogo e só a entende quem a vive como elas e como eu, de forma apaixonada.

No dia 16 de Fevereiro de 2012, escrevemos História. O resultado (derrota do Qatar por 2-0), acabou por ser secundário quando comparado com o pioneirismo do encontro. Decorreu tudo num estádio fechado aos homens: apenas as mulheres tiveram acesso. Os telemóveis com câmara foram confiscados pela segurança à entrada, evitando-se desta forma as tão inconvenientes fotografias. Um só jornalista e um fotógrafo (ambos homens do Comité Olímpico do Qatar) fizeram a cobertura do jogo, sendo toda a informação por estes veiculada para os restantes meios de comunicação social. Todas as fotografias foram no final verificadas pelas responsáveis do Comité Olímpico da Mulher.

Qatar 90 minutos para (Re)criar históriaEm cada jogada, cada bola dividida, mais do que a táctica desejada pelos treinadores, expressou-se uma atitude fabulosa de parte a parte, com uma agressividade muito positiva. Tivemos sem dúvida as melhores ocasiões de golo e oportunidade de marcar antes e depois dos golos Afegãos. Estavam ansiosas, nervosas, algo que enquanto treinadora e dado a inexperiência que têm, não foi fácil de controlar. Aprenderam imenso. Valeu a pena! Algo inesquecível para o resto das suas vidas, para o Futebol Qatari, já digno de registo no futuro Museu do Desporto, que em breve abrirá portas.

Viveu-se o orgulho em representar um país: um sentimento de Reconquista para as Afegãs e de Conquista para as Qataris. Um passo histórico para ambos. O Futebol Feminino é visivelmente agora uma aposta interna. O jogo traduziu-se numa “vitória” pessoal: muito trabalho estrutural de dois anos, muita luta, muito esforço compensados num cenário lindo, um campo fabuloso cheio de apoiantes, muitas afegãs. Um arrepio ao som do Hino do Qatar, o sentimento de que pertenço também a este país e que deixo algo na vida destas jogadoras e muitas outras. Missão cumprida!