Qual é o Preço das Ideias?

28 de Dezembro de 2017

A análise financeira de Mourinho como causa do “status desportivo” do futebol inglês, frisando que o “Manchester City compra laterais pelo preço de avançados” fez-me recordar outra velha história.

Contava-a Angel Cappa quando nos anos 90 era treinador-adjunto do Real Madrid e uma vez convidou um amigo louco por futebol para passar uns dias lá em casa e, por ser quem era, conseguiu arranjar forma de ele ir ver um treino. À noite, quando, à mesa, lhe perguntou o que achara, o que lhe impressionara mais, o amigo respondeu:

-“O carro do Panucci Angel, incrível.”. Cappa ficou espantado. “Mas, como assim”?, perguntou. – “É um Porsche Angel. Imagina onde chegou a loucura do futebol, até os laterais já têm um Porsche!”.

A indignação do amigo de Cappa tinha raízes no seu “imaginário racional” do futebol desde sempre. As grandes estrelas sempre foram avançados. São eles que ganham os jogos e fazem muitos golos. Nessa lógica intemporal, só eles podiam ganhar fortunas de perder a cabeça. E ter os melhores carros também.

Não sei que carros têm os laterais do Manchester City mas admito perfeitamente que sejam de marcas do mesmo valor. Nunca, porém, nenhum carro ou lateral mais caro ganhou, por si só, um campeonato. O dinheiro ajuda mas “gastar 350 milhões em reforços são insuficientes a este nível” desabafou Mourinho. Admito que sim. Até 600 milhões podem não chegar. Porque, no futebol, os títulos (como a própria capacidade competitiva) pura e simplesmente não se compram.

 

O mais precioso no futebol para a construção de uma forma de jogar com qualidade e eficácia de uma equipa não tem preço. O que é? É a sua ideia de jogo. A sua identidade.

É necessário, claro, ter bons jogadores que a potenciem e para comprar os melhores para isso é preciso gastar muito dinheiro (mas nem sempre esses serão os mais caros, mas sim aqueles que melhor se aplicam a essa operacionalização em campo da ideia).

É esse o tesouro que Guardiola traz consigo quando chega a uma equipa: a sua filosofia de jogo. Para além de obsessão de ganhar, quer primeiro realizar a obsessão de colocar a equipa a jogar o seu “futebol de autor”. Como fez em Barcelona, Munique e agora em Manchester. Ganhar ou perder é outra questão. A forma de jogar (e, consequentemente, como ganhar ou perder) é que é inegociável. E vem primeiro. De resto, já todos os estilos e tácticas ganharam e perderam campeonatos.

E assim chegamos à pergunta que ultrapassa (ou precede) qualquer jogador. Qual é o preço das ideias? Não existe. Está dentro da cabeça de quem “pensa o jogo”. Neste caso, o treinador. Que, em geral, também sai do centro de treinos num carro fabuloso. Um Porsche, pode ser.

 

Identificar identidade

Acho curioso como a palavra identidade faz confusão a tanta gente atualmente no futebol (treinadores, diretores, analistas). Entendem-na como se fosse um dogma. Como significasse só ter uma forma de abordar o jogo e nunca ceder a circunstâncias. Um erro de perspectiva que afecta os que vêem a personalidade de clube para clube como algo maleável ao ponto de quando se quer analisar um treinador em função da sua forma de pensar o jogo, não se consegue, pois ele muda-a de equipa para equipa.

Claro que têm de existir adaptações ás realidades (grandes ou pequenas) de cada clube mas tal trata-se apenas da “visão-micro” da realidade. A “visão-macro” é que é a identidade do treinador, a sua filosofia. Identidade nunca poderá ser... identificar pontos fracos e pontos fortes do adversário. Isso é estratégia, ou as “nuances” estratégicas, que, astutamente, irá meter na ideia, para, em cada jogo, a “identidade em especificidade” se expressar da forma mais eficaz. Em nenhum momento a irá atraiçoar. Porque identidade é a “impressão digital”. Imaginam alguém sem uma no B.I.?