Quando o equilíbrio faz o estilo de uma equipa

20 de Setembro de 2014

Desde que o futebol existe, a bola é o centro de tudo. A parir desse ponto, a forma como um jogador se posiciona em função dela (local onde está e por onde passar) é a base de todos os equilíbrios (individual e colectivo). Quase como uma peregrinação táctica literária, tenho ao longo dos anos falado da importância (em múltiplos vectores e prismas) da importância do medio-centro, nº6, velho trino, o pivot, nas equipa modernas. Nenhuma equipa de top funciona se não funcionar essa posição. É impossível, taticamente falando.

A forma como Jesus analisou taticamente a derrota do Benfica frente ao Zentit, identificando a incapacidade de controlar as zonas centrais, espelham a importância desses espaços sobretudo em termos do que é o equilíbrio base da equipa. Outra coisa são os erros individuais. A grande questão (problema) está taticamente mais à frente. O mais clamoroso no futebol é, no entanto, o impacto do erro. Devora o jogador, uma equipa e, no limite, o resultado.

Voltando atrás, senti o mesmo vendo o Belenenses em Alvalade, jogando bem, mas desequilibrando-se muitas vezes. E a razão estava, claro, no corredor central. Voltamos aos mesmos espaços. E mesmo num duplo-pivot, há uma jogador referência base entre eles. Fazer passes de primeira instância (para o colega que está mais próximo) quando se joga em bloco baixo e os espaços estão encurtados é quase como meter a equipa a jogar na berma de um precipício táctico. O passe falha e ela despenha-se. Depois, é o clássico no adversário: intercepção, passe vertical, diagonal de desmarcação e o golo quase inevitável. Ver como China e e Pelé insistiam em jogar assim, arrepiava dentro de um contexto de uma equipa que, sem essa ousadia, estava bem posicionada.

Na Luz, a questão ultrapassou o mero erro individual (que também existiu nesse mesmo passe de primeira instância) mas baseou-se mais numa posição em que Jesus tem, época após época, reconstruído jogadores. De Javi, Matic, André Almeida, entre outros, até agora Samaris.

O mais implacável neste confronto com o Zentit foi ver como um “jogo de espelhos” com o passado porque do outro lado estava o primeiro elemento desse elenco, Javi Garcia, o protótipo-Jesus da posição, no equilíbrio que dá (porque sabe estar quieto no sitio e como sai para fazer faltas altas (matando contra-ataques). Samaris é, neste contexto, outro projeto de jogador para Jesus trabalhar, moldando-o como uma pedaço de madeira à navalha. Mas é nestes jogos que a realidade se vê. O nível do nosso campeonato cria ilusões quase todas as semanas (Setúbal dixit)

No FC Porto, a sensibilidade táctica dessa posição é mais evidente mas sobretudo no primeiro momento de construção. É difícil, com a qualidade da pressão adversária a subir (e o nível competitivo do jogo) Casimiro ler essa posição na colocação e velocidade adequadas porque não é o seu habitat. Ele tem “outro futebol” dento dele. A ideia que me dava em Guimarães que continuando a jogar juntos. Casemiro a nº6, Ruben Neves a nº8, o maior risco que se corre é um deles ser um dos próximos lesionados ao chocarem entre eles. Ruben Neves funciona claramente, melhor a 6 como farol de circulação da equipa. E partir dai o jogo flui de forma diferente.

Os resultados podem, de facto, contar “muitas mentiras” sobre os jogos, mas quando uma equipa está nessa posição nº6 bem agarrada ao seu estilo e equilíbrio, nunca perderá o mais importante: sensibilidade tática.

DESTAQUE: Quando se chega ao fim de um jogo e o treinador sente muitas dúvidas do que viu nos 90 minutos, é quando tem de tomar a decisão mais simples e complicada: voltar as origens da construção de jogo da equipa.