Quantos “campeonatos” existiram mesmo esta época?

16 de Maio de 2016

No inicio, havia Fejsa, Samaris, Talisca... Discutia-se até Jonas e o sistema pós-Lima. E havia Adrian a jogar a pivot (com William Carvalho lesionado), João Mario no meio e os centrais eram Paulo Oliveira-Naldo. Estes eram algumas “imagens tácticas” de Benfica e Sporting no arranque do campeonato.

Jesus tinha uma ideia definida e procurava como a aplicar. Rui Vitória buscava a melhor forma para decidir a... melhor ideia entre a herança do passado (de Jesus) e os seus novos conceitos que queria meter. Depois reapareceu William, surgiram Coates e Ruben Semedo, João Mário passou a vir da ala tendo Gelson que esperar no banco o melhor momento para entrar. Também apareceu Pizzi e o sistema encarnado adquiriu outro equilíbrio na relação entre alas e zonas interiores (Gonçalo Guedes tal como Gelson passou a esperar), Jonas voltou a pegar na equipa e, sem Luisão, inventaram-se centrais até Lindelof.

No meio de tudo, numa tarde-noite no Cazaquistão, um miúdo com rastas entrou, pegou no meio-campo e criou um impacto que o levou para Munique ainda antes da época acabar. Renato Sanches.
Penso que Rui Vitória conseguiu o mérito de suplantar a forma como de inicio nos tentaram vender este campeonato: como o duelo entre Jesus e a estrutura de futebol do Benfica que era capaz de vencer sem ele. A forma como o campeonato decorreu, nas suas alternâncias de poder (e liderança) dizem hoje que não é essa a melhor forma de o ver.

As equipas mudaram desde o inicio mas há diferença de perspectiva nessa evolução de ambas as equipas. Enquanto que o Rui Vitória tinha de solidificar duma ideia de jogo (que foi no percurso criando com avanços e recuos), Jesus tinha de fazer evoluir na variabilidade estratégica a que já tinha desde o inicio.
Nessa prisma, embora a equipa do Sporting tenha sido quem mais vezes jogou melhor ao longo da época, a do Benfica foi a que cresceu mais a fazer bem aquilo que...aprendeu a fazer bem. Parece simples mas é muito complicado atingir esse estado de consciência táctica.

sporting-teo

Jesus ganhou três dos quatro dérbis que jogou (Supertaça, Taça e campeonato) mas perdeu o único que não podia verdadeiramente perder no seu grande objectivo do campeonato. No caminho cruzado que ambas tinham feito até ser possível a inversão de liderança nesse jogo o Sporting desperdiçara uma vantagem que chegara a sete pontos (oito com mais um jogo). Ao mesmo tempo, em surdina, Rui Vitória fazia o seu “caminho das pedras”. Poucos acreditavam que o fizesse com sucesso. Nessa noite do derby, Jesus perdia a liderança ficando estarrecido ao ver o falhanço de baliza aberta do, talvez, jogador tecnicamente mais perfumado do campeonato, Brian Ruiz. O futebol tem destas ironias.

Gosto muito de falar de tácticas, modelos de jogo, estratégias, mas existem outra formas de ver este regresso do clássico Benfica-Sporting na luta pelo titulo para além dos treinadores. Por isso, nos jogadores, a pergunta: será este o campeonato de Renato Sanches ou de João Mário?
Faltam 90 minutos. Num campeonato tão longo, o mais provável é acabar exatamente com uma sensação contrária em relação à que começou. O golos e vitórias encarnadas sofridas até ao fim dos jogos pareceram obra do sinais do destino mas, em verdade, foram produto do crescimento mental da equipa que, nesta parte final, soube, com esse impulso, fintar o desgaste físico.

Pode-se muitas vezes não saber dizer exatamente onde esteve a chave para ganhar um campeonato (porque tantos são os momentos decisivos) mas quase sempre nunca existem duvidas para, ao mesmo tempo do outro lado, saber-se exatamente onde ele foi perdido. Rui Vitória e Jesus, ambos, sabem responder a esta questão, estejam em que lado estiverem no fim da último suspiro do campeonato.

A grande questão da luta pelo titulo: como foi possível o Sporting perder sete pontos de vantagem?