Quem faz a equipa: o médio ou o ponta-de-lança?

26 de Outubro de 2014

Quem faz a equipa o médio ou o ponta-de-lança

O tempo no futebol parece que passa mais depressa. Em rigor, até passa mesmo. A Alemanha deslumbrou ao ganhar o Mundial e poucos meses rever a manschaft causa alucinações. É outra equipa. Os jogos contra Polónia e Irlanda colocaram Low diante da reconstrução dum onze pós-Lahm, Schweinsteiger, Klose (e, nestes jogos, sem Ozil). Perdeu na Polónia e empatou com a Irlanda.

Nos nomes citados há um que representa mais do que ele próprio. Klose. A Alemanha continua sem gerar um terrível ponta de lança. Não deixa, porém, de querer jogar com um nº9 e o seu 4x2x3x1 com Muller solto nessa posição. Custa perceber como é possível que o nova filosofia de formação germânica continue a passar ao lado dessa posição, enquanto os extremos, segundos-avançados e pivots (continua com duplo-pivot) seguem a sua “cadeia de produção “ normal.

Quem faz a equipa o médio ou o ponta-de-lança A questão é perceber se o valor que trazem dentro deles pode também soltar-se na seleção. Olho para Ginter (pivô do Dortmund) e Ballarabi (extremo do Leverkussen) e sente-se como é difícil atravessar esse túnel. A seleção outrora vertiginosa a sair com a bola torna-se lenta a construir, elaborando demasiado o jogo onde Kroos assume-se como a principal referencia. Não define, porém, claramente, os papéis de Gotze (com as virtudes do vagabundo criativo e os defeitos da falta de jogo posicional quando é preciso circular/trocar a bola perante adversários fechados) e, sobretudo, Draxler, preso na duvida se deve jogar desde a esquerda (onde pode embalar na sua velocidade) ou no cento (onde pode desequilibrar verticalmente). Enquanto duram essas duvidas, os dois jogadores andam à procura do melhor local, vão mudando e, entretanto, o jogo acaba.

Em suma: mesmo para os alemães, emocionalmente imunes a estados de alma, todos jogamos como podemos e nunca como queremos.

Quem faz a equipa o médio ou o ponta-de-lança Ao mesmo tempo, a Espanha inventou um ponta-de-lança brasileiro para a sua seleção e agora sofre com a sua inadaptação: Diego Costa. Enquanto o onze quer jogar no pé (em passes apoiados) ele quer no espaço (em passes profundos). Responsável pela sua escolha, Del Bosque tanto não desistiu dele ao ponto até de sacrificar o sistema táctico da equipa em função dele. Deixou o 4x3x3 e surgiu no Luxemburgo em 4x1x3x2.

Com Paco Alcácer a seu lado, Diego passou a ter mais espaço, porque o seu companheiro de ataque (avançado fantástico de toque e foge) arrasta marcações. As oportunidades foram surgindo e Diego foi falhando perante a estupefacção na cara de Del Bosque que de cada vez que isso acontecia flagrantemente, contra os rudimentares luxemburgueses, voltava cabisbaixo para o banco carregando o peso no seu casaco de carapuço. Ao mesmo tempo, Diego erguia a camisola para esconder a cara. Até que o golo surgiu. Num ressalto, a bola ficou a saltar-lhe à sua frente, e bang!, por fim foi para as redes.

O problema de construção do “novo ciclo” espanhol permanece, no entanto, intacto. Nesse sentido, o novo sistema pode ser uma via táctica interessante. Sem Xavi, porém, tudo parece sempre incompleto. Por isso, vendo-os jogar acabo sempre a ceder à tentação de procurar alguém que faça as mesmas coisas ou parecidas. A solução? Recuar Iniesta (cada vez menos jogador de faixa aos 30 anos). Ele podia ser essa espécie de clone, no estilo e na dinâmica.

Da Alemanha à Espanha, nada é repetível. Um estilo, uma bola e um grupo de jogadores. Se mudar a base deste ultimo factor começam logo a fazer-se demasiadas perguntas. Muitas sem resposta. O desafio é conseguir que voltem a sair exemplares (jogadores) originais, não tentativas de reprodução.

Sem Xavi, tudo parece sempre incompleto. Por isso, vendo a Espanha cedo sempre à tentação de buscar alguém que faça coisas parecidas. Solução: recuar Iniesta