Quem tem medo de Lopetegui?

10 de Outubro de 2016

Se vos pedissem para dizer o que é, em rigor, uma equipa, o que diziam? Eu diria, sem hesitar, que é (deve ser) uma ideia de jogo em movimento. Essa ideia é transportada e transmitida pelo treinador. Num plano macro, pensando em anos de trabalho ou seleções, traduz-se na criação de um estilo que, no atingir máximo das suas capacidades, transforma-se numa escola. Foi o que a Espanha conseguiu na última década. A obrigatoriedade de, porém, ter de pôr nomes próprios às ideias (ou melhor, à execução das ideias), fez com que a sua operacionalização encravasse numa crise existencial nos últimos anos, mas, vendo-os jogar nesta jornada de apuramento para o Mundial, sobretudo frente ao rude jogo italiano, circulando a bola em jogadas construídas a 15/20 toques, vislumbra-se logo de imediato a ideia a aparecer outra vez. Foi para isso que Lopetegui foi contratado. Para treinar a ideia. Não para ser ele a construir uma.

Olhando este mundo de estilo, custa meter no meio um penalty absurdo cometido por entrada fora de tempo por um jogador que nasceu como lateral, tornou-se central, e pensa como avançado, com a raça à frente da técnica. Sergio Ramos, claro. Arrancou pela raiz Éder dentro da área e deu o empate à Itália.

Em termos tácticos de estrutura, a Espanha de Lopetegui alternou entre o 4x3x3, 4x4x2 e 3x4x3. trocou o triângulo do meio-campo por uma espécie de quadrado, com Koke a assumir-se atrás no duplo-pivot ao lado de Xabi Alonso. Assim defendia melhor... em posse, cobrindo Busquets quando o adversário atacava, ficando Iniesta solto para missões ofensivas, quase como segundo avançado (o “mediapunta” como lhe chamam os espanhóis). Quando via o processo ofensivo a entrar nos últimos 25 metros ia com Diego Costa e assim parecia que se desenhava um 4x4x2, não deixando o nº9 de profundidade tão isolado como sucedia no passado, na era de Del Bosque, onde se chegara a desistir de encaixar Diego Costa na seleção por ser contranatura com o estilo.

O 3x4x3 surgiu na Albânia com a defesa a “3” feita pelos marcadores Ramos-Monreal e Piqué nas obras, mas que só pode resultar se os médios pressionarem sempre e tiverem pose, algo natural para os pés e jogo de Busquets, Thiago, Koke e o “professor” Iniesta. Os extremos, Vitolo-Siva não encararam tanto, no entanto, no um-para-um os laterais albaneses, como o sistema exige e por vezes Diego Costa focou desapoiado.

Ficou na memória mais o recital contra a Itália, em que o onze aparecia por todo o lado em largura e profundidade, onde só o aparecimento dum “objeto misterioso” defensivo fez tremer (e mudar o resultado) a “casa táctica estilística global”.