Quem trata melhor a bola?

14 de Outubro de 2010

Quem trata melhor a bola?

O Brasileirão 2010 entrou na fase decisiva. O simples facto de ver como são dois argentinos que agarraram a sua face mais criativa, na posição de médios ofensivos, diz quase tudo do estilo que domina o actual futebol brasileiro. Eles são Montillo, no Cruzeiro, e Conca, no Fluminense, maestros dos dois grandes candidatos ao título.

O peso da influência destes jogadores é mais notório no Cruzeiro, pois Montillo chegou a meio da época (vindo de uma fantástica Copa Libertadores no U.Chile) e transformou a qualidade de jogo da equipa. No Fluminense, o grande reforço foi, na mesma fase, Deco, mas como no onze já existia Conca, Deco teve de jogar desde posições mais recuadas, perto da dupla de volantes que se coloca à frente da defesa, mas no caso do Flu, sem capacidade em sair para o jogo. São eles Diogo, Valência ou Fernando Bob. Não está em causa o valor dos jogadores. Está em causa as suas características. O colombiano Valéncia é o que sai mais, mas falha muitos passes. Correm muito mas na maior parte do tempo, em vez de correr com a bola (transportando-a para o ataque) correm atrás dos adversários.

A entrada de Deco foi decisiva para o treinador Muricy Ramalho mudar o sistema preferencial de 3x5x2 para 4x4x2. Continua a alternar entre eles (com laterais ofensivos, Mariano-Carlinhos) mas é em 4x4x2 que a equipa fica mais equilibrada tacticamente, com Rodriguinho muito móvel e rápido, a girar, na frente, em torno do veterano ponta-de-lança Washington, cada vez mais posicional na área (o tipo de nº9 pesadão só possível ainda de existir no futebol brasileiro). Deco beneficia claramente do ritmo mais lento do futebol brasileiro, está muito menos intenso sem bola, só joga no pé, altura em que faz a diferença no passe. Nos outros momentos do jogo, desaparece, e deixa a recuperação para os médios pica-pedra do novo futebol brasileiro.

O Cruzeiro de Cuca joga num 4x4x2 mais europeu que por vezes parece um 4x3x3 quase único nos gramados brasileiros. Penso mesmo que é quando a equipa joga melhor. O jogador-chave para essa transformação é Ewerton, um ala canhoto que cai na esquerda, passando Tiago Ribeiro para a direita, ele que quando em 4x4x2 joga mais próximo do ponta-de-lança (Wellinton Paulista ou Farias). O equilíbrio é dado pela dupla de volantes. Fabricio (muito bem no passe longo) e Henrique, que também saem bem para o jogo, soltando, à frente, Montillo, que, com organização criativa abre espaços nas defesas adversárias. Em 4x4x2, sai Ewerton e entra Roger, para jogar mais atrás no meio, mas, muitas vezes, nesse sistema, choca com Montillo, o tipo de jogador-craque que precisa de liberdade para respirar bom futebol.

Vendo o Corinthians

Depois de um início forte, o Corinthians quebrou nos últimos jogos. Adilson Baptista, o técnico, claro, acabou despedido. Não é fácil, porém, mudar muito a forma de jogar da equipa, na qual o jogador que mais lhe dá maior vida atacante em termos de criação é um médio que quer ser avançado. Bruno César. Muito dinâmico, move-se em torno dos dois avançados, vendo sobretudo onde cai Jorge Henrique (o mais móvel e esquivo) indo, em geral, para o flanco vazio, o oposto de onde ele está. Noutras vezes, recua para zonas entre-linhas e ordena o jogo. O avançado mais adiantado (com Ronaldo lesionado) tornou-se Iarley, de origem mais vagabundo, longe do perfil típico de um nº9.

É um 4x4x2 que (com Roberto Carlos ainda vivo na esquerdo) contempla três médios mais de contenção: Ralf, Jucilei e Elias. Dos três, Ralf é o mais posicional. Jucilei é o mais possante e ganhando confiança para subir pode ser, no futuro, um grande jogador (tem 22 anos). Elias é hoje aquele que se pressente ter mais qualidade a defender e a atacar, mas joga tacticamente demasiado preso atrás para a visão de jogo que tem. A equipa vive, assim, presa entre dois sistemas de jogo e não consegue estabilizar nenhum. Não tem um médio ofensivo criativo como Fluminense e Cruzeiro (Conca e Montillo) e isso está a fazer a diferença nesta fase decisiva do campeonato.

Douglas e Jonas

Quem trata melhor a bola?Depois de ver dezenas de jogos do Brasileirão, confesso que o jogador que gosto mesmo de ver jogar é o Douglas, o 10 do Grémio. Não é uma promessa, tem 28 anos e até já anda com uma barriguita. Mas a forma como controla a bola, trava, simula e passa ou arranca, faz lembrar o tipo de jogador à moda antiga, que quase só faz sentido a preto-e-branco. Mas não. O Douglas joga a cores e merece ser visto, mas com calma, sem ninguém se irritar quando demorar um pouco mais a soltar a bola.

Mas quem se destaca no Grémio é o avançado Jonas. Uma carreira discreta, tem 26 anos, e de repente, é o artilheiro do Campeonato. 19 golos. É um avançado móvel (1,83m), embora não fuja muito da zona típica do nº9. Apenas para procurar a bola e tabelar. Remata bem e é oportuno. Penso que será sobretudo um caso de excelente momento de forma (e sobretudo motivação). Não o vejo como um goleador para brilhar nos próximos anos. Neste momento, vê-se sobretudo que acredita em todas as jogadas. Só isso é meio-caminho para um avançado encontrar o golo.