“Queremos o mundo, e queremo-lo já!

02 de Maio de 2008

“Queremos o mundo, e queremo-lo já!

Quando era miúdo imaginava os jogadores quase como personagens de banda desenhada. Isto é, só existiam mesmo durante os 90 minutos que duravam cada jogo. Ou, quanto muito, também nos cromos. E, sinceramente, acho que foi a época mais feliz que vivi em contacto com o futebol. A mais imaginária. A mais longe da realidade, afinal. É algo perturbante pensar nestas coisas desta forma Ou irónico, talvez. Quanto mais nos afastarmos da realidade, mais felizes ficamos com a nossa existência. Por isso, entendo quando se diz que a idade adulta é um pouco como o “cemitério dos sonhos”.

Desafiar a realidade é um bom tema. Uma boa forma de passar pela vida. E pelo futebol. Em 1968, Paris era o coração do mundo. Nas ruas, toda uma geração inventava uma nova forma de sentir a vida. Quarenta anos depois restam as imagens no lugar das crenças, a grande diferença entre as sociedades de hoje e as de outrora, como diria Roland Barthes. Lembro há alguns anos seguir uma entrevista com símbolo desse cruzamento entre crença a imagem, Daniel Cohn-Bendit, o jovem rebelde com causa de 68 tornado então eurodeputado pelos verdes alemães. Mantêm o ar blazé. Perguntam-lhe se durante aquele tempo acreditou mesmo que podiam mudar o mundo. Romanticamente iconoclasta, responde: “mas nós mudamos mesmo o mundo!”.

Os jogadores de futebol dos anos 60 e parte dos 70 também davam a sensação de poder “mudar o mundo” com a bola nos pés. E mudaram. Até chocarem com a realidade. No presente, há um lado mais griff do jogo, que desenha os jogadores quase como pop-stars. Seria o mesmo que poderia ter acontecido com a geração dos 60 se tivessem os mesmos instrumentos de comunicação, internet, telemóvel, etc, do presente? Talvez. O simples facto da confissão de Jardel, no precipício da droga, já não causar perturbação é um sinal forte da guerra perdida.

Resgatando nesse labirinto da memória os anos 60/70 portugueses, a imagem de Vítor Baptista, auge e decadência, no futebol como na vida, foi a primeira viagem completa entre estes dois mundos paralelos. Entrou no futebol no mesmo tempo em que nas ruas de Paris se repetia a frase de Jom Morrison “nós queremos o mundo, e queremo-lo já!”. Jogou do primeiro ao último jogo com a mesma postura. “O maior”.

Pelo Benfica nas noites europeias, procurando um brinco na relva após marcar um golo ao Sporting, até ao pátio da prisão em que caiu finda a carreira, extinta a glória, onde ainda entrava e ninguém lhe tirava a bola, depois, de repente, sentava-se no chão e parecia ficar alheado de tudo, a olhar não se sabe para quê. Pode parecer estranho mas muitas vezes dou por mim a pensar na mesma imagem vendo os jogos actuais com os grandes jogadores do presente. Como se existisse um túnel secreto onde eles por vezes se escondem. Com uma saída, ou várias, mas todas impossíveis de decifrar.

Se fosse vivo, o ”maior” faria agora 60 anos. Partiu corroído pela vida.

 “Queremos o mundo, e queremo-lo já! É duro perdermos os nossos heróis. É diferente, mas senti algo parecido vendo Marion Jones a assumir, chorando e pedindo desculpa, que se dopara anos seguidos durante os tempos em que fascinou o mundo com a sua velocidade bela e elegante, para além do sorriso cativante quando cortava a meta. Dirão que, como afirmou Yourcenar, a explicação para tudo isto está em que “toda a perfeição tem implícita a palavra fim”. O existencialismo é hoje um livro fechado. Já não faz sentido fumar Gitanes e beber vinho tinto. Mas faz sentido rever as imagens de 68.

Para a vida, como para o futebol. Para em vez de imagens, voltarmos a consumir crenças.