Questão de competência

06 de Março de 2008

Há lances que ameaçam tornar-se metralhadoras na cabeça dos jogadores. O tempo passa e, no treino, no café ou nos semáforos vermelhos, lá vem ele outra vez à mente. Sem avisar. Como é possível? Fecha-se os olhos, imagina-se outro desfecho, se tivesse tocado a bola antes daquela forma, se tivesse lhe dado com mais força, se… A face de Tarik, sentando no banco como num tapete voador incapaz de levantar, substituído pouco depois de falhar um golo a centímetros da baliza, era o espelho perfeito desse estado de espírito. Ele que naquele mesmo relvado inventara, meses antes, um golo “maradoniano”. Nestas alturas, a questão táctica escapa à lógica do futebol.

Frente a uma equipa alemã defendendo “à italiana”, sem mexer um nervo da face, o plano de Jesualdo bateu numa parede de oito jogadores azuis mais um polvo em forma de guarda-redes. Há equipas que ganham jogos inteiros jogando só meio-jogo. Ou seja, colocam-se a maior parte dos 90 minutos numa posição previamente planeada, onde se sentem mais confortáveis, e tentam que ele se decida nesse plano. Em vantagem, o Schalke quis disputar o jogo colocando-se sempre no momento defensivo. Para isso, montou duas muralhas à frente da sua defesa, tacticamente “fechou a porta”, e ganhou o jogo inteiro sem ter de jogar no momento ofensivo pois sem nunca ficar em desvantagem, nunca sentiu necessidade de o fazer. O FC Porto viveu quase sempre no lado oposto. Há algo de cruel nesta interpretação do jogo. Quase um duelo ente o bem e o mal. Não é bem assim. Porque o futebol não é uma questão moral. É, antes, uma questão de competência. Colectiva e individual. Da bancada, imaginasse se aquelas duas bolas em vez de irem ter com um ala marroquino, tivessem ido ter com um qualquer ponta-de-lança argentino.

Com Farias no banco, o ataque portista foi por outros caminhos. Quis mobilidade para confundir marcações (Tarik) em vez de maior competência na área (Farias). Em vez de cair em solo argentino, a bola cairia então em solo marroquino. Não é a mesma coisa. Como não foi Lisandro frente à baliza depois do jogo. É um avançado que se empolga com a proximidade do golo e nessa alturas vai mais longe do que as suas condições físicas parecem autorizá-lo, mas um penalty é outra história. Escreve-se à margem do jogo. Numa decisão após 120 minutos ainda mais.

Questão de competênciaNo último fôlego, Quaresma isola-se e a promessa de golo invade o Dragão. Parece estranho mas à medida que se aproxima da baliza ele vai afastando-se do golo. O guarda-redes parece crescer de tamanho e a baliza fica mais pequena. Mas onde está o ângulo para a bola passar? Simula uma vez, duas vezes, mas o bloco de gelo Neuer não cai, hesita, remata, e o guarda-redes vai buscar a bola com a ponta da bota. Questão de competência. Saltando os labirintos da táctica, é este o último território onde se decidem jogos na dimensão internacional. O FC Porto volta a ficar encurralado na “prisão competitiva nacional”. No plano táctico, é uma consequência lógica das insuficiências da equipa. No plano quase bíblico, é uma consequência da eterna luta entre o avançado e o guarda-redes. Esta é, no entanto, uma questão que o futebol português deve fazer. Face ao seu total domínio interno, faz mais sentido ser colocada ao FC Porto: como saltar a fronteira para a verdadeira dimensão internacional? Apesar dessa incapacidade ter resultado do choque contra uma muralha defensiva adversária, a verdade é que, no futebol, há noites em que se tudo torna mais claro. Os jogos com o granítico Schalke (como com o Chelsea a época passada) revelaram quais os limites colectivos e individuas, tácticos e técnicos, do FC Porto da era Jesualdo. Total domínio nos relvados portugueses. Curta personalidade nos palcos europeus. Duas realidades. Duas formas de vida.

O “livro” do Dragão

Questão de competênciaUm conselho: Não sejam «sérios»!

O FC porto tem mais 8 jogos para cumprir até ao fim da Liga. Os estímulos competitivos esfumaram-se. Uma das formas que Jesualdo gosta mais de utilizar para elogiar as exibições da sua equipa é dizer que ela fez “um jogo sério”. Mas, o que é uma equipa séria? É uma equipa que não se ri em campo? Percebe-se que o professor quer falar na concentração e no rigor, mas não são estas as palavras mais empolgantes para um adepto. Muito menos quando a pressão do resultado já não existe. Por isso, sem mudar hábitos, talvez a melhor forma de colorir os últimos jogos passe por dar um novo rosto às exibições. Dar um sorriso à ordem. Ser menos “sérios”. Em vez de partir do equilíbrio para jogar, partir dos desequilíbrios que são capazes de fazer.

 

“Relógio” Assunção: «tic-tac!» «tic-tac!» «tic-tac!»

Questão de competênciaComo âncora desse “mundo de seriedade”, um jogador que raramente aparece nos resumos. O “relógio” Paulo Assunção. Na posição que representa quase o “leme táctico” de uma equipa em campo. Marca dos ritmos, orienta duas linhas de jogadores e pensamento. É o estilo de jogo solidário.

Posiciona-se em sintonia com os quatro defesas que se colocam nas suas costas. Move-se em auxílio aos médios que soltam-se à sua frente. Concilia a fase operária com a de início de construção. Passes quase sempre curtos. Simples e sérios. Como os ponteiros de um relógio.

 

 

Bosingwa: O futebol não é para Einstein

Questão de competênciaPara lá do mundo de fantasia de Quaresma, outro ser vivo azul-e-branco fura insolente esse “jogo sério”. É Bosingwa, espécie de acelerador da máquina de Jesualdo. Depois de uma carreira noutras posições, encontrou na lateral-direita o seu habitat perfeito. Quando jogava como médio-ala ou quase extremo, nos tempos do Boavista, detectavam-se muitos defeitos de visão táctica de jogo. Errava muitas vezes nas decisões a tomar. Não é, por definição, um jogador inteligente. Mas como o futebol é mais simples que a teoria de Einstein, vindo de trás, olhando o jogo com horizontes mais largos, Bosingwa tem mais opções a tomar e soluções para surpreender. Futebol “alegre”.