RACING CLUB PARIS

04 de Abril de 2000

O FUTEBOL NA CIDADE DAS LUZES, Capital do glamour francês, onde o futebol também soube, com elegância, criar os seus heróis. Na primeira metade do Séc.XX, os seus profetas tinham a camisola azul clara do Racing: Mathé, Hiden, Araneudeau, Bruen, e, entre outros, o avançado Cisowski, artilheiro da máquina goleadora parisiense que, depois, foi perdendo, ao longo dos anos, o brilho de outrora, mesmo depois do projecto Matra, com ASrtur Jorge, em meados dos anos 80...

Fundado em 11 de Fevereiro de 1932
Onde joga: Stade de France
Campeão Francês: 1936
Taça de França: 1936, 1939, 1945 e 1949.

HRACING CLUB PARISá quem diga que estar em Paris já é, por si só, um acto de cultura. Criada numa atmosfera vanguardista, paraíso de iconoclastas com e sem causa, amante da belle epoque, berço de poetas, vendedores de sonhos e eterna atracção de aventureiros desterrados, a cidade das luzes cultivou, através dos tempos, uma sedutora imagem de noiva da Europa, por vezes com contornos prêt-a-porter, outras vezes alta costura pura, ecos de CoCo Chanel e Yves St.Laurent, refúgio de intelectuais existencialistas e românticos loucos. Nesta paisagem artística, surrealista e visionária, o futebol nunca despertou grandes paixões. É preciso vasculhar de lanterna em punho na história futebolística do século, para encontrar uma equipa ou outra capaz de despertar as emoções parisienses nos relvados de Colombes ou do Parque dos Príncipes. Grande pioneiro desta aventura, foi, no inicio dos anos 30, o Racing Club de Paris, um velho caminhante do futebol gaulês, que, desde o remota data da sua fundação, já conheceu múltiplas formas e nomes: Racing CF, RC Paris, Matra Racing, Racing 92 e de novo RC Paris. Os registos oficiais falam em 1932, como o ano de fundação do Racing Club de Paris, mas, observando a sua história verifica-se que a sua génese criadora esteve muito antes, em finais do Sec.XIX, em 1882, quando a melhor sociedade parisiense resolvera formar um clube polidesportivo, destinado sobretudo á prática do atletismo. Chamaram-lhe Racing Club de France, transportava os ideais dilantistas de Coubertin e, numa imagem que perdura até hoje, era visto como o clube das elites. Em 1886, o Racing uniu-se ao Stade Français, outra colectividade da grande Paris e criou uma federação, União de Sociedades Francesas Desportivas e Atléticas, a USFSA, destinada a organizar eventos desportivos. Pouco depois, organizavam o primeiro torneio parisiense de Football. Os míticos clubes participantes foram o Club Français, Standard ACX, os White Rovers, Internacional Club, CO Asneères e o CA Neully, surgindo também, a partir de 1987, uma equipa de futebol do Racing Club France, que ganharia o trofeu em 1907.

COM O PROFISSIONALISMO, NASCE O RACING PARIS

RACING CLUB PARIS1Em 1917, o Racing foi um dos 48 participantes da primeira edição da Taça de França. Durante os anos seguintes, paralelos á primeira grande guerra, o clube confirmou-se como um dos grandes impulsionadores do futebol francês, até que, chegados aos anos 30, foi confrontado com um dos grandes dilemas da sua história. Seguindo o que se passava um pouco por todo o mundo, a Federação francesa de futebol organiza em 1932, o primeiro campeonato profissional. Entre os melhores clubes, o Racing CF seria um dos participantes naturais, mas, fiel devoto do amadorismo, via o profissionalismo contrário aos seus princípios. A solução encontrada seria, assim, a criação de um novo clube, o Racing Club de Paris dos nossos dias, que, no fundo, fora uma extensão profissional do Racing CF, embora sem qualquer vínculo jurídico entre eles. Por isso se fale em duas datas de fundação, a do Racing CF, em 1887, e o Racing CP, apenas destinado ao futebol, em 1932. Durante toda a década, até ao eclodir da Segunda grande guerra, o Racing, que equipava como o clube mãe, de azul claro e branco, impôs-se como uma força do novo futebol francês, alinhando jogadores de grande classe, como o avançado Roger Couard, 30 golos, o pequeno ala esquerdo de origem húngara Mathé e o guarda redes austríaco, titular da Wunderteam, Rudi Hiden, Le Chat, o gato, que chegado a Paris em 1933, deslumbrou as plateias do Estádio de Colombes com as suas defesas. Na memória ficaria então a lendária saison de 35/36, onde o Racing conquistou a Taça e o seu primeiro e único titulo de Campeão Francês da sua história, treinado pelo inglês Kimpton, também seleccionador da França, e que trouxera consigo o inovador sistema táctico do “WM”, temperado com uma rígida marcação individual. Continuando a impor a sua força na Coupe, o Racing atravessou os anos 40 – década em que o Lille se impôs como o grande clube francês do pós-guerra- longe do titulo, acabando por cair na 2ª Divisão em 1953. Um facto que causou grande sensação na época. No seu onze estavam nove internacionais franceses, passados, presentes e futuros: Arnaudeau, Bruen, Cisowski, Foix, Gabet, Lamy, Mahjoub, Mustapha e o guarda redes Vignal, apelidado de Flying Frenchman pela imprensa britânica, após uma fabulosa exibição em Wembley, que valeu um empate, 2-2, á selecção gaulesa frente á Inglaterra.

A MÁQUINA GOLEADORA

RACING CLUB PARIS3Apesar de não voltar a sagrar-se campeão francês desde 1936, o Racing Paris chega aos anos 60 como o clube francês, talvez, mais credenciado internacionalmente, depois do Stade Reims. Para este estatuto, muito contribuía a sua história e, sobretudo, a fama do bom futebol praticado, sua imagem de marca nos ventos da Europa que escutava impressionada os ecos de uma equipa super ofensiva que quase todos os anos era o melhor ataque de França. Em 58/59, época em que foi contratado o treinador Pierre Pibart, ex-seleccionador francês, um profeta do futebol de ataque, a equipa atinge o auge goleador, marcando 118 golos e terminando em 3ºlugar, emergindo como grande goleador o avançado Thadée Cisowski, melhor marcador do Championatt. Mas, apesar dessa pujança goleadora, o Racing viria a perder o seu segundo campeonato, em 1962, apenas por diferença de golos marcados em relação ao Stade Reims, que no último jogo venceu sensacionalmente, por 5-0, o Strasbourg, enquanto o Racing se limitou a bater o Mónaco por 2-1.

THADÉE CISOWSKI: Golos de expressão polaca

RACING CLUB PARIS5Nascido em Lazki, na Polónia, cedo rumou ao futebol francês, onde chegou em 1948, com 21 anos, para jogar no modesto Pienes. Foi o maior ponta de lança da história do Racing, no qual ingressou, em 1952, com grande sensação, após ter sido contratado ao Metz, pela soma record á época, de 13 milhões de francos. Jogou 8 épocas no Racing, entre 52/53 e 59/69, fazendo 167 golos. Foi por três vezes o melhor marcador da Division I (em 56, 31 golos, 57, com 33 e 59, com 30) e uma vez na Division II, pelo Metz, com 23 golos, em 51. Um dos seus grandes dias seria, no entanto, com a selecção francesa, quando após se naturalizar gaulês, fez 5 dos 6 golos com que a França derrotou a Bélgica em 1956. Era um grande oportunista, movimentava-se muito bem entre as defesas e em frente ao guarda redes, raramente falhava. O Mundial-58 poderia ter sido o da sua consagração, mas uma sucessiva onda de lesões, que martirizaram o seu joelho, levaram-no a ficar sem jogar toda a época de 57/58 e obrigaram-no a encerrar a carreira em 1960, com 32 anos.

A UEFA E A SEGUNDA DIVISÃO

Os dias de glória pareciam, no entanto, submersos pelo passado. Em 1964, no ano em que registou a sua única aparição nas competições europeias – na Taça das Cidades com Feira, onde foi eliminada na primeira eliminatória pelo Rapid Viena- o Racing Paris, em profunda crise desportiva e financeira, acaba por voltar a descer de divisão. Submerso em problemas, decide então para evitar a extinção, fundir-se com o Sedan, criando o RCP-Sedan que iria jogar na Iª Divisão. Era, no entanto, uma união atípica, mal vista pelos adeptos dos dois clubes e que estava condenada ao fracasso. Em 1968, o Racing decide terminar a união e abandona o profissionalismo. Era o fim do Racing Club Paris. No seu lugar renascia o Rancing France, a jogar na Divisão de Honra de Amadores, longe dos grandes palcos. Sem grandes recursos, passou a década de 70 entre a Divisão de Honra e a IIIª Divisão nacional, até que no inicio dos anos 80, surgiram outros vendedores de sonhos e o clube voltaria, com outros contornos, a renascer...

OS TEMPOS DO MATRA

RACING CLUB PARIS7Num tempo em que a rebelde geração de 68 chegava á idade do poder, o mundo francês deparava-se com as novas ironias da história. Guiado pelo frio braço da economia, o Velho Continente caminhava para uma união híbrida, onde imperavam, sob as vilas e aldeias de toda a petit europe, um núcleo de grandes grupos económicos, embriões de multinacionais sem alma. Era o inicio dos anos 80. Dentro desta atmosfera, o Racing encontra-se mergulhado na IIIª Divisão, quando um desses gigantes empresariais, a MATRA, uma empresa ligada á industria automóvel mas que também fabrica metropolitanos, aviões, mísseis e até estações orbitais, decide, através de um dos seus directores, Jean-Luc Lagardère, tomar conta do clube, que pretende tornar, em poucos anos, numa grande empresa de futebol. Começam a chegar grandes figuras ao clube, como Zvunka e uma jovem promessa argelina que se revelara no Mundial-82, Madjer. Em 1984, o clube regressa, 17 anos depois, á Division I. Apesar dos investimentos, a equipa adquire uma imagem elevador de sobe e desce. Em 1987, depois de contratar Silvester Takac, Littbarski e Maxime Bossis, passa oficialmente a denominar-se Matra Racing e o investimento atinge o auge com contratação do treinador campeão europeu pelo FC Porto nesse ano: Artur Jorge. Ao seu dispor tem um onze onde moram estrelas como o marroquino Krimau, o holandês Soly e mágico uruguaio Francescoli. O grande golpe no mercado de transferências surge no entanto com a contratação do símbolo do grande rival parisiense: Luis Fernandez. A equipa realiza uma época razoável, mas longe das grandes vitórias – a maior terá sido a do derby com o PSG, triunfo por 2-1- terminando num tranquilo 7º lugar. Na época seguinte, Artur jorge lança, ao lado de Bouderbala e Guérin, a jovem promessa Ginola e vem a Portugal buscar o criativo Jorge Plácido. O clube permanece, no entanto, fora da luta pelos títulos e a MATRA começa a desinteressar-se pelo investimento que tarda em dar retorno. Em 1989, decide, friamente, abandonar o clube que, desamparado, acaba por descer de divisão em 1990, já sob a orientação de Kasperczack e com a nova denominação de Racing Paris 1.

A aparição em 1990, na final da Taça de França, com um onze onde estavam os portugueses Sobrinho e Jorge Plácido corresponde ao último grande momento da história do clube. A derrota frente ao Montpellier, 1-2, é o seu último fôlego na alta roda do futebol gaulês. Desamparado, sem dinheiro e relegado para a II ª Divisão, o Racing regressa ao velho Estádio de Colombes. Todos os jogadores são vendidos e forma uma novo onze á base de jovens, cuja média de idades é de 20 anos. Sem experiência, volta a descer de divisão em 92/93 é obrigado a tornar-se amador, após dois anos na IIIª Divisão, perdendo o estatuto profissional. Impotente, vê o seu centro de formação assaltado pelos grandes clubes profissionais, autênticos caçadores de tesouros. Novamente, o Racing sente o perigo da extinção. Em 1998, no entanto, um acordo com a Parmalat, permite salvar o clube, que muitos sonham rever, um dia de regresso á elite do futebol francês. É neste clima de esperando Godot, que o Racing chega ao fim do século, aguardando pelo tal dia do regresso, tão nubloso como as recordações parisienses de Bogard no final de Casablanca, também na ânsia utópica de um reencontro, talvez não hoje, talvez não amanhã, mas um dia...