«Radiografia» azul-e-branca

05 de Dezembro de 2007

«Radiografia» azul-e-branca

Entre ganhar na Luz e ser goleado em Liverpool mediaram apenas três dias. A primeira tentação ao verificar esta rápida viagem do inferno ao paraíso é, de imediato, pensar que o jogo do FC Porto mudou muito de um jogo para o outro. Mera ilusão de óptica futebolística. Apesar de as linhas caracterizantes do jogar do onze de Jesualdo, pontos forte e fracos, continuaram exactamente iguais. E isto porque em ambos os jogos o FC Porto mostrou, claramente, o código genético do seu futebol actual.

Sendo essencialmente uma equipa de transições rápidas, necessita de um ritmo de jogo alto para colocar em prática esta forma de jogar. Então, activa muito bem o pressing alto no corredor central com Lucho e Meireles caindo em cima da bola ainda no meio-campo adversário, mantêm Quaresma bem aberto na faixa, Bosingwa transporta a equipa em aceleração desde trás, apoiado no últimos metros pelos movimentos interiores de Tarik (embora sendo raro triangulações, o Porto joga sempre um-para-um nas faixas) e Lisandro é, ao mesmo tempo, mover-se em diagonais, curtas ou longas, e depois ser o primeiro defesa a cair em cima do adversário que quer iniciar a saída de bola. Nessa altura, a defesa pode respirar e subir alguns metros no terreno.

Joga então num bloco médio-alto e tem o jogo na mão. O problema surge quando passa a querer controlar o jogo e colocar-lhe um ritmo mais lento com posse e circulação. Foi o que tentou no início das segundas partes de Liverpool e Luz, onde em ambas entrou com rsultado favorável. Em ambas, foi evidente que este FC Porto não sabe, ao mesmo tempo, baixar o ritmo e controlar o jogo.

«Radiografia» azul-e-brancaMal tenta descer o ritmo, a primeira consequência são os médios e segunda linha perderem intensidade de pressing, recuam no terreno e com isso também forçam a descida da linha defensiva. Passa a então a jogar muito atrás, nas imediações da sua área, em bloco baixo, não por opção, mas por incapacidade de face às alterações de coordenadas rítmicas do jogar (sobretudo o meio-campo) depois de dominar o jogo (em ritmo alto) não ser capaz de o controlar (em ritmo mais lento). Parte-se então a ligação defesa-ataque, pois embora seja forte nas transições rápidas (que implica proximidade de linhas) o FC Porto tem muitas lacunas no contra-ataque (que implica distância entre-linhas). Olhando para as faces do banco do Porto na Luz ou em Anfield podia-se entender o que se passava em campo. Em Liverpool, de inicio, Torrres teve no ataque a companhia de Babel e Voronin. Ao intervalo, Benitez acrescentou Kewell.

Quando a pressão se intensificava, e o jogo já fugia, entra a girafa Crouch. Quando o bombardeamento parecia acalmar, Jesualdo olha para o lado e ainda surge mais Kuyt. Na Luz, as faces estavam menos fechadas.

Para além dos argumentos individuais de Camacho serem, claro, menores, também falta argúcia táctica para entender as limitações do jogo azul-e-branco naquele momento. Assim, o FC Porto pode voltar à vida, calmamente, fugindo das zonas de pressão onde se deixara cair com um facilidade que foi impossível em Liverpool. O facto de só poder estruturar-se, de forma sólida, em 4x3x3, com apenas três médios puros expõe demasiado estas lacunas da equipa em termos de controlo do meio-campo face a adversários que saibam encher melhor o meio campo, quer em superioridade numérica (o 4x4x2 de Liverpool) quer em capacidade de ganhar espaços e roubar e circular a bola. Fica então mais clara a necessidade de, na dimensão internacional, o FC Porto saber trabalhar o jogar dentro do 4x4x2. Para quarto médio, Kaz (mais numa perspectiva de transição) ou Bolatti (para encostar a Assunção na blindagem do espaço central defensivo entre linhas à frente da defesa, trabalhando também na recuperação), podem ser as melhores soluções, soltando mais Lucho para zonas mais adiantadas.

Com isto, a equipa dificilmente melhorará muito em termos de circulação de bola, mas ganha mais peso para ocupar espaços num sector chave onde se decidem os jogos.

Tarik e Emanuel, os metros e o carácter

«Radiografia» azul-e-brancaEntre os dois jogos detectam-se, no entanto, diferenças de dinâmica individual. O jogador que mais mexeu com a atitude de um sector foi Pedro Emanuel. Cortou de carrinho uma bola de golo logo aos 40 segundos, passou quase todo o jogo com algodões no nariz e na boca para travar o sangue que um pisadela na cara lhe provocara, e, com a sua voz de comando (incentivando colegas e ordenando-lhes o posicionamento) foi decisivo para estabilizar emocionalmente a defesa. Claro que não lhe devolve a velocidade perdida pós-Pepe, mas, mesmo quando o bloco baixo sufoca, com Emanuel o sector ganha maior coesão e carácter. No ataque, a diferença foi Tarik.

Será interessante analisar o porquê deste jogador ter crescido tanto de uma época para a outra. No jogo, o que mais impressiona, é a facilidade como ganha metros conduzindo a bola em posse mesmo arrancando desde a linha do meio-campo. Será o jogador que melhor contra-ataca. Dá profundidade e sabe temporizar. Mariano é menos intenso e em vez da progressão vertical tão necessária naqueles momentos, lateraliza demais os movimentos. Neste contexto, estes dois jogos foram decisivos para, em termos individuais, se perceber o essencial e o acessório do actual FC Porto.