San Lorenzo, Los Locos e a Libertadores

26 de Agosto de 2014

San Lorenzo, Los Locos e a Libertadores

 

O futebol e a religião têm jogado cada vez mais de mãos dadas por estes campos fora, como se tratasse de uma dupla de centrais ou até mesmo de dois avançados que se complementam. Que o diga o San Lorenzo que quebrou uma maldição de 54 anos ao vencer a sua primeira Libertadores.

‘Os Santos’ vivem os seus melhores dias desde a eleição do adepto Papa Francisco em 2013, ano em que retomaram o caminho dos títulos com a conquista do Torneio Inicial da Argentina.

Edgardo Bauza cumpriu o que prometeu: vencer a Libertadores. “Patón” teve a árdua tarefa de suceder a Pizzi e sentiu dificuldades para impor a sua filosofia de jogo, assente num modelo que visa um jogo colectivo com jogadores dinâmicos, inteligentes tacticamente e com elevado espírito de sacrifício. O técnico argentino só conseguiu colocar em campo as suas ideias perto do apito final da fase de grupos da Libertadores. O San Lorenzo qualificou-se para os oitavos-de-final depois de terminar em 2º lugar na fase de grupos. 8 pontos com 2 vitórias, 2 empates e 2 derrotas, somando 6 golos marcados e 5 sofridos, num grupo liderado pelo Unión Española com 9 pontos. O Independiente del Valle terminou em 3º com 8 pontos e o Botafogo em último com 7 pontos.

Seguiu-se a eliminação do Grémio, do Cruzeiro e do Bolívar.

A final foi disputada frente ao Nacional do Paraguai com o San Lorenzo a levar a melhor. Mérito para o trabalho de “Patón” que conseguiu colocar a equipa argentina a jogar à sua imagem depois das adversidades iniciais onde foi pouco compreendido pelos jogadores.

San Lorenzo, Los Locos e a Libertadores Bauza adoptou diferentes sistemas tácticos. Utilizou o 4x4x2 na maioria dos jogos e passou ainda pelo 3x5x2 (ou 5x3x2 em processo defensivo) no jogo frente ao Unión Española no Chile. Na final a duas mãos, “Patón” montou a equipa em dois sistemas diferentes. No primeiro jogo fora, ‘Os Cuervos’ alinharam em 4x2x3x1, tendo como variante o 4x4x1x1 em alguns momentos do jogo. Na segunda mão em casa, o campeão da Libertadores jogou num 4x4x2. Dois momentos distintos. Fora, o San Lorenzo procurou o erro do adversário e jogou na expectativa, contrariamente ao que se sucedeu em casa onde assumiu o jogo com um sistema mais ofensivo e mais objectivo.

Em termos defensivos a equipa apresenta algumas vulnerabilidades e inconsistências tácticas o que se deve ao facto de existir um elevado envolvimento ofensivo por parte dos laterais. Torrico é o guarda-redes titular com Cetto e Gentiletti a formarem a dupla de centrais. Fontanini e Kannemann são as outras opções. Os centrais não se sentem confortáveis a sair a jogar com a bola controlada, preferem uma saída mais segura, lateralizando o jogo ou optando por um passe sem risco para um dos pivots-defensivos. Aparecem algumas vezes fora da sua posição na tentativa de compensarem as subidas dos laterais.

Buffarini na direita e Mas na esquerda são as principais referências do San Lorenzo na primeira fase de construção. Trata-se de dois laterais de características ofensivas, móveis e com grande capacidade técnica. Bauza passou muito tempo a adaptar estes dois laterais às suas ideias de jogo.

San Lorenzo, Los Locos e a Libertadores O sector intermédio é o mais forte com um tridente constituído por dois pivots-defensivos e um médio organizador. Mercier assume um papel mais fixo na frente dos defesas e Ortigoza desempenha a função de médio de transição com maior capacidade de progressão e saída de bola. Kalinski é o substituto natural de Ortigoza mas também pode actuar nos corredores. Romagnoli é o ‘10’ desta equipa argentina. O capitão teve problemas com o treinador mas hoje em dia é a extensão de “Patón” em campo.

A linha avançada é composta por Villalba na direita, Piatti na esquerda e Matos na frente de ataque. Dois extremos evoluídos tecnicamente e velozes com Matos a jogar mais fixo na frente e a servir com a referência da equipa. Cavallaro. Barrientos e Verón são os outros extremos do plantel. Piatti só alinhou no jogo da 1ª mão, já que depois disso rumou à MLS para defender as cores do Impact Montreal. O extremo de 29 anos pretender jogar o Mundial com o San Lorenzo, aproveitando o facto de a MLS terminar em Outubro. A alternativa para o jogo da 2ª mão passou pelo 4x4x2 com Romagnoli a desempenhar uma função de falso extremo esquerdo. Alinharam dois avançados diferentes, Matos e Cauteruccio. Blandi também é uma opção para o lugar de Cauteruccio. Um mais fixo, Matos, e outro mais móvel, Cauteruccio, com capacidade para cair no flanco quando Romagnoli flectiu para o meio para organizar o jogo.

“Pipi” Romagnoli

San Lorenzo, Los Locos e a Libertadores Leandro Romagnoli é conhecido na Argentina como o ‘Senhor Ciclón’ por ser o único jogador a estar presente em todas as conquistas internacionais do San Lorenzo. Copa Mercosul em 2001, Copa Sul-Americana em 2002 e agora a Libertadores em 2014. O argentino de 33 anos voltou a encontrar o seu espaço no clube da sua infância.

“Pipi” tem liberdade para pisar todos os metros do campo, organizar as acções ofensivas e aparecer no apoio à referência ofensiva, normalmente Matos. O ‘10’ do San Lorenzo vai ter a oportunidade de disputar o Mundial de Clubes em Dezembro deste ano depois de ter assinado um pré-contrato em Janeiro com o Bahia. O capitão do San Lorenzo quis voltar atrás na decisão e dar continuidade ao excelente momento no clube argentino para ter a possibilidade de disputar o Mundial de Clubes em Marrocos. Uma competição que se prevê complicada para o San Lorenzo pela falta de estabilidade defensiva e a forma como a equipa se desdobra ofensivamente, provocando espaços no seu sector defensivo que podem ser aproveitados pelas equipas adversárias.

Com a saída de Piatti, Bauza terá de encontrar uma solução para o lugar de extremo-esquerdo. A ideia deverá passar por continuar a adoptar o 4x4x2 com Romagnoli a descair sobre a faixa esquerda e com liberdade para fazer movimentos interiores, assumindo a organização do jogo a partir daí. Por tudo o que o craque argentino representa, Romagnoli será uma bandeira deste San Lorenzo. Mas não será só deste. Um clube que tem crescido com o toque do tango de uma referência única. Um casamento perfeito entre dois românticos, “Pipi” Romagnoli e San Lorenzo, o clube dos loucos de Buenos Aires.

Francisco Gomes Silva escreve para o site Goal Point e para Revista Futebolista. Criou o projecto Bola ao Meio.