Porque eles são como “tatuagens de carácter” no jogo

16 de Março de 2017

1.

Onde nasce o carácter? Aquele que faz alguém (neste caso um jogador de futebol) destacar-se dos outros no jogo e até na sua forma de olhar para os adversários, a sua própria equipa, treinador, e, no fundo, tudo na vida, até uma loja de roupa num centro comercial.

Diego Costa é um desses “case studys” mais fascinantes. Até demais, pensarão, porque dele se foi criando a ideia que para além do fabuloso avançado que é, desafiando tudo que lhe aparece à frente, também podia ao mesmo tempo criar um motim até num parque infantil.

Dizem que agora há um “novo Diego Costa”. Na mesma demolidor no jogo mas mais sereno na atitude emocional. Hummmm... isso é possível? Na essência, nunca. Na forma de lidar com a essência, é possível. Vejo-o contra o Crystal Palace, equipa “rochosa”, que luta por não descer (jogo fora) e cada defesa o trata como lhe apontando uma pistola. Encara, luta, vê o seu primeiro amarelo após 12 jogos por uma falta a meio-campo, a seguir é rasteirado e o defesa deixa-lhe na queda a marca dos pitons na cara. Levanta-se, não entra em discussões, joga com sangue o resto da primeira parte, a marca é visível. Perto do intervalo aí está a sua bola na área e ele não perdoa, lá em cima, cabeceia com a marcação agarrando-o. Golo e o festejo sozinho no banco com Conte, ambos com gestos e expressões de como se estivessem na “paisagem duma batalha”.

Não foi um golo daqueles que são a sua “imagem de marca”, após poderosas desmarcações, ou buscas em profundidade pela bola que lhe é metida no espaço longo para ele batalhar e resolver tecnicamente. Golos que são “sonhos de raça” como o que fez, divinal, nesse estilo, no jogo anterior com o Sunderland.

2.

Simeone confessa que só decidiu a sua contratação para o At.Madrid, que foi um regresso de quatro empréstimos, porque nesse período ficava surpreendido pela forma como os seus jogadores falavam dele e festejavam os seus golos pelo Rayo Vallecano no autocarro de regresso dos jogos que disputavam, quando sabiam que ele tinha marcado. Um jogador que provoca um impacto destes no grupo não pode ser desperdiçado, porque dizia-se que tinha um carácter indomável que matava o seu talento. Nunca ouvi história de uma contratação (entenda-se o que a decidiu) mais fantástica!

Mourinho apostou em Ibrahimovic para o seu Manchester (e defende-o de todas as criticas). Não acredito que o tenha feito só por acreditar que a “última rock-star do futebol atual” ainda pudesse, nesta fase da carreira, marcar, aos 35 anos, a diferença em termos de jogo. Contratou-o sobretudo pelo carácter que poderia dar à equipa, no campo, no túnel, no balneário, ou até quando sai do campo e vai, altivo, a caminho do carro. Um estilo iconoclasta que nos jogos ainda continua a marcar golos e a festejar cada um deles como se estivesse sempre a desafiar o mundo. Como toda esta casta, ia a escrever “raça” (e faria mais sentido) de jogadores desafia em cada jogo. O futebol precisa deles. Chamem-me louco.São como espécies de “tatuagens de carácter” no jogo.

Estes dois jogadores são ambos pontas-de-lança (mais ou menos clássicos), mas este principio também se aplica aos defesas, a qualquer posição, afinal. Os defesas, porém, têm este lado estimulado como se fossem responsáveis pelas “portas do castelo” da equipa, a entrada da sua área onde se tem de proteger aquilo que os avançados conquistaram na outra área (em termos de resultado).

Neste ponto, Sérgio Ramos é hoje um dos “últimos moicanos”. Que defende nos limites (ou ultrapassando os limites), mas que também invade a outra área e torna os últimos minutos de enfarte para as defesas adversários pelos golos que faz nessa altura. Inventou-se um tempo novo no jogo: a “zona Sérgio Ramos”. Já nos descontos, todo o carácter num cabeceamento. No Bernabeú ou no Nou Camp.