O segredo: Descobrir talento ou reinventar talento?

01 de Abril de 2017

1.

Terminou o mercado de Inverno, o “buraco negro” por onde desaparecem (e raramente aparecem) equipas a meio da época. Ainda continua em aberto, é verdade, em algumas paragens faraónicas ou oligarcas, mas em termos da Europa compradora de “top”, fechou sem criar grandes impactos.

Refletindo sobre a prospecção, o que, neste momento, mais me impressiona nessa contratação de talento, não é a sua descoberta, ou o conseguir chegar primeiro a uma promessa escondida. O que me impressiona é quando se contrata talento... já descoberto, mas que, por desígnios vários, não está a render ou a demonstrar as qualidades que tem.

São, em geral, jogadores ditos “problemáticos”. O impressionante é, então, quando após tanto tempo atraiçoando-se a si próprios (rebeldes sem causa), aparecem, por fim, com outra atitude e cabeça, soltando a qualidade que têm.

Penso nisso vendo como o Sevilha tem trabalhado esse factor nas últimas épocas. Não são só os jogadores que descobre e depois vende fazendo muito dinheiro. São os talentos que recupera e faz renascer ao mais alto nível. Esta época, penso nisso vendo Nasri, Banega e, agora, Jovetic.

Com, talvez, o melhor diretor-desportivo da Europa, o astuto Monchi (com passado discreto como guarda-redes), já descobriu jogadores como Dani Alves, Júlio Baptista, Aleix Vidal, Rakitic, Adriano, etc, mas é quando consegue reinventar talento que admiro mais o trabalho na sombra da estrutura do seu Sevilha (que começou a construir na II Divisão). Esta época, para além dos casos citados, ainda fez renascer Franco Vázquez e tem o desafio-Ganso.

Quando há tempos disse, sobre este tema, que o segredo está na “humanização” do jogador, encontra-se o “ovo de colombo” para a exploração do talento rebelde que anda perdido e para o qual, em geral, os maiores clubes não têm paciência e deixam cair fácil (o que sucede muito em Inglaterra e Itália). Compram “tudo”, mas depois, quando chega a Janeiro, deixam muitas peças soltas –entenda-se jogadores de qualidade- que se podem, então, ir buscar porque estão desvalorizados. Eles, o seu talento, são, no entanto, os mesmos.

2.

Por isso, quando pensou contratar Nasri, que andava a arrastar o seu talento no Manchester City, quase até o esquecer, ligou a De Michelis, que foi colega de Nasri, perguntando o que precisaria ele para mostrar o valor que tem: “Repara- disse De Michelis- com Samir (Nasri), tens de fazer o mesmo que fizeste com Éver (Banega). Dar-lhe carinho. Fazê-lo sentir-se importante no grupo”. E, assim foi. Eis a expressão da tal “humanização” do talento.

Jovetic andava deprimido no Inter, em Itália, num clube onde se exige aos jogadores o “mundo” todos os dias. Chegou a Sevilha e na estreia fez um golo fantástico no último minuto, que deu a vitória sobre o Real Madrid. Nessa altura, porém, mais do que festejar o golo, a preocupação de Monchi já era outra. Fazer com que a mãe do jogador conseguisse o transbordo certo do avião que vinha de Podgorica, no Montenegro, para Sevilha, para ver o filho.

Monchi sabia como isso tinha preocupado Jovetic antes do jogo. Por isso, não podia falhar com ele no fim. Nesse detalhe, enorme para o jogador, estava, afinal, escondido, na sua cabeça, a motivação e explosão do seu talento. E, assim, após o jogo, Jovetic pôde estar com a mãe.

Nada disto é táctica, 4x4x2 ou preparação física. Tudo isto é a humanização do futebol como base essencial para despoletar o talento que o jogador tem dentro de si e antes, metido nos seus problemas, rebeldias ou depressões, não conseguia mostrar.

Em suma: Descobrir talento é fantástico. Mas, acreditem, não é assim tão difícil. Pelo contrário. Difícil mesmo é potenciar talento apagado, escondido nas teias da cabeça dum jogador, detectá-lo e fazê-lo reemergir. Ou seja, descobrir talento... já descoberto. E reinventá-lo. Eis a fórmula que os médios clubes que querem ser grandes têm de aprender a dominar.