O “seguro de vida táctico”

25 de Outubro de 2016

A equipa perde alguns dos seus jogadores mais importantes, mas há um entre eles que consegue, mesmo sem brilhar com luz própria nas jogadas individuais mais imaginativas, lhe garante os equilíbrios de visão nos diferentes momentos do jogo e em diferentes posições. É como ter um “seguro de vida táctico”. Pizzi conseguiu esse “estatuto” no Benfica e o seu caso (de evolução de conhecimento táctico que começou na passagem para nº8 no tempo de Jesus) devia ser um dos objetos de estudo de eleição para perceber como pode um jogador crescer nos fundamentos do jogo (ele que na origem, já passaram uns anos, era um mero extremo rebelde e rápido no Braga).

Essa ideia de “seguro de vida táctico” notou-se na vitória encarnada em Kiev quando voltou vindo da sua ala direita (na qual não é um mero ala, mas sim um equilibrador que tanto sabe ir para zonas interiores e ser médio como abrir e dar largura na construção ofensiva) para a tal posição de chefe nº8 da “sala de máquinas” do meio-campo, onde com a “âncora Fejsa nº6 atrás”, formou a dupla de estabilização de processos da fórmula Rui Vitória.

É curioso mas mantendo estes dois jogadores (e, por consequência, estas duas posições equilibradas) o Benfica parece que não mexe no seu onze-base apesar das ausências de titulares naturais que tem nele. Fejsa é a outra face, a mais fixa posicionalmente, ao mesmo tempo a mais importante e a menos visível, desse segredo da coesão. Desta forma, os extremos vagabundos Salvio e Cervi puderam jogar de acordo com a sua essência imaginativa na frente.

A chave do sucesso foi encontrar um onze-base e com ele ir até ao fim dos limites físico-tácticos para ganhar o campeonato. Esta época, esse onze-base tem sofrido rombos com lesões, mas a dupla Fejsa-Pizzi (cada qual na sua missão, posicionamento e ocupação dos espaços) tem garantido a ideia (a tal “memória táctica colectiva”) de pé durante todos os jogos.

Fejsa-Pizzi: existe o onze-base abalado, mas continua a existir a “dupla-base” para segurar taticamente a equipa.

Aprender o jogo com base apenas na repetição limita muito aquilo que podem fazer os melhores. Por isso, deve como existir uma separação estilística entre sectores ou donos de cada um deles numa equipa. Ou seja, o equilíbrio atrás (nas costas) é que permite criar condições para poder surgir poder de desequilíbrio na frente.

Entre os três grandes, o Benfica até pode parecer hoje o menos empolgante, mas é aquele em que o treinador sente maiores certezas. Exatamente o posto do que sucedia por esta altura na época passada, quando Rui Vitória se debatia com dúvidas de sistema e jogadores com o peso da herança de jesus (o que levou até Jonas a sair do onze e Pizzi a nem existir como opção). Como as coisas mudam. Basta fazer as perguntas certas.

vitoria-jesus

 

Ilusões: dominar ou controlar

Existe muito no debate futebolístico atual a tendência de que uma coisa é dominar um jogo e outra é controlar um jogo. Nesse sentido, Jesus marca as suas equipas pela forma como querem dominar (e não conseguem depois controlar quando é necessário por “gelo” no jogo) e Rui Vitória marca as suas pela forma como as coloca mais controladoras (mas não consegue muitas vezes cair de forma avassaladora do adversário para “matar” o jogo). Percebo a dicotomia das ideias, e ela existe, mas numa equipa essas noções nunca podem viver separadas na capacidade de as ativar em campo.

A grande questão reside no conceito de bloco e ligação entrelinhas (seja qual for o sistema). Quantas mais linhas se formarem, mais junta, coesa, está uma equipa para dominar e quando quiser, passar a controlar. Porque, por principio ideológico, penso que a ordem deve ser esta. Nada do que é evoluído no jogo se faz sem pensamento prévio. Mesmo que, em campo, o jogador já se guie nas suas ações pelo subconsciente escondido que o faz (parecer) agir antes de pensar. Pura ilusão. Antes disso há um saber, dominador e/ou controlador, adquirido. Nada existe sem o cérebro.

Porque Vitória tem tantos triunfos fora como Jesus na Champions?

O igual numero de vitórias (3) com menos jogos de Rui Vitória nos jogos europeus fora do Benfica na Champions em relação a Jesus leva a pensar como isso é possível.

Não vejo a questão táctica como a grande causa. O modelo-Jesus apostava mais numa noção de “equipa partida” (que se expunha mais defensivamente, algo fatal a este nível) em relação á noção de “bloco mais coeso” de Vitória (com a equipa mais junta e organizada no momento defensivo) mas onde noto maior diferença é noutro ponto. É no pensar em dois (ou mais) jogos ao mesmo tempo, inserindo-o essa programação competitiva num processo global e não de jogo a jogo, como se um fosse mais importante que outro o que leva a menorizar um deles.

Mais do que ser taticamente mais forte, este atual Benfica europeu nos jogos fora é mentalmente mais competitivo. É nesse ponto que nasce a diferença. Em nenhum momento, um jogo europeu (da Champions) é visto como um ser menor em relação ao campeonato.

No passado (como a época passada no Sporting) Jesus assume a prioridade campeonato. Vitória mete-a no próximo jogo e nunca deixa cair a dimensão internacional. Antes a promove. Os jogadores sentem isso. Mentalmente (e, depois com o natural transfer de atitude táctico-competitiva no jogo). Tudo começa, porém (dentro do tal processo global) na cabeça.