Quando a seleção brasileira beijou Coutinho

15 de Novembro de 2016

Eu sei que o mais alucinante é o “catavento nos pés” do Neymar, mas quem faz mesmo do jogo “prosa em verso” é o Coutinho.

Na origem, foram Izaguirre e Morfino. O primeiro fez dois golos. Depois, passaram uns dias e foi Ruben Salles. Outro golo, decisivo. Estes nomes são míticos e foram, em 1914, os fundadores da lenda que até hoje (e para a eternidade humana) irá continuar a fazer o “Clássico das Américas”.

Eles foram os marcadores dos golos nos primeiros jogos da história entre Brasil e Argentina (houve outros dois antes, em 1908 e 1912, mas não reconhecidos porque a seleção brasileira ainda não tinha sido oficialmente criada). No primeiro, ganhou a Argentina (3-0) e no segundo o Brasil (0-1), ambos os jogos em Buenos Aires, no Estádio do Clube Gimnasia y Esgrima.

Pouco anos passaram. Um século e pico apenas. E agora foi Coutinho e Neymar (mais o Paulinho, até) a invadirem a história num local que, antes do jogo, era uma casa de fantasmas onde ainda se ouvia o soprar do vento que ficara da passagem supersónica de Muller, Kroos e restantes membros do “passeio militar futebolístico” alemão que fez o 1-7, o “Mineirazo” do Mundial-2014.

Não é fácil jogar no meio de fantasmas porque, em geral, embora historicamente inofensivos, têm o dom de aparecer mentalmente quando menos se espera. Mas não em todos os seres humanos com uma bola cozida ao pé.

Eu sei que, neste momento, todo o mundo alucina com o jogador brasileiro que mais se assemelha aos dribladores de “catavento nos pés” (como dizia o Armando Nogueira do Garrincha) porque é ele que faz mais parecer o jogo uma “brincadeira” -falo do Neymar, claro- mas, para mim, quem faz mesmo do jogo “prosa em verso” é o Coutinho.

É um nº10 (embora que leve este numero seja o Neymar) nem que entre num desfile de samba. Com ele, o jogo ganha sentido. Ou melhor, as fintas e arranques têm causa, não só expressão. Ganhou essa capacidade adulta de expressão na terra dos Beatles. A música sempre ligada ao futebol. Num batuque como numa guitarra.

messibola

O que adianta falar de táctica aqui no meio desta viagem por jogadores que nos fazem voar o imaginário? A verdade é que faz, nem que sejam poucas linhas, só para dizer que toda esta nova ideia de jogo criativa-harmonizada do Brasil, surge porque acabou a “dungazização” e entrou a multicultaridade de Tite, um treinador que sabe romper as fronteiras do tempo e das culturas, e devolveu critério ao talento do onze canarinho.

Coutinho começa no mesmo espaço de jogo donde saiu de Liverpool, na faixa puxando para dentro, tal como Neymar em Barcelona e a nº9 (á frente do trio rotativo só com um volante que sabe sair a jogar, Fernandinho, e dois armadores, Renato Augusto-Paulinho) um garoto que antes também jogava fora do sitio certo, Gabriel Jesus.

Do outro lado, cada passo de Messi em campo era uma imagem da melhor definição de tango “um sentimento triste que se dança”. Não tinha, porém, sedução, só angustia e um olhar perdido.

O que acontece à “pulga mágica” na seleção em relação a Barcelona? Simples, Tiram-lhe a moldura da ideia de jogo em que joga num sitio (e o faz mover-se num grupo que joga de olhos fechados) por outro sitio (que o faz mover-se e de repente olhar e não ver nem os mesmos espaços, movimentações ou ideias).

Não culpo o treinador “El Patón” Bauza. Ele chegou há pouco tempo, vem do “fútbol argentino” profundo e não pode mudar o que já tem raízes. Com Sabella, esta Argentina chegou á Final do Mundial há apenas dois anos. Não foi por ter jogado muito melhor, mas sim por ter olhado melhor para cada jogo.

Quando ao intervalo (a perder 2-0), Bauza tirou Enzo Perez (que andava perdido na direita) e meteu Aguero junto de Higuain, libertando mais Messi desde a faixa (ou de onde ele quiser) já se aproximou mais do que seria mais lógico, mas por cada grande plano dele bebendo água percebia-se facilmente que (ao contrário do que sucede no Brasil com Tite) ninguém treina hoje aquele grupo de jogadores que fazem a seleção argentina.