Selecção, O segredo do «homem-âncora»

20 de Outubro de 2007

Selecção, O segredo do «homem-âncora»

Os leitores mais velhos devem lembrar-se bem dele. Nobby Stiles. Era um dos médios defensivos mais temíveis dos anos 60. Jogou na selecção inglesa de 66. Era pequenino e tirava a dentadura antes de entrar em campo mas tinha um aspecto que metia medo e cada marcação sua era um acto de terror. Naquele tempo, porém, não se dava tanta importância aos jogadores que jogava nessa posição. Hoje, trincos ou pivots-defensivos, refinaram a forma de jogar e aumentaram a influência no jogo colectivo.

São, tacticamente, os jogadores mais importantes para o equilíbrio da equipa, numa posição que é a âncora que mantêm o onze preso ao campo durante 90 minutos. Alf Ramsey, treinador de Stiles, também lhe dava muita importância mas na hora das instruções perguntava-lhe apenas se tinha cão. “Sim? Óptimo. Basta lembrares-te dos passeis no parque que dás com ele. Quando atiras uma bola, ele corre atrás dela, agarra-a e volta para trás deixando-a de novo aos teus pés, certo? Pois bem, quero que faças o mesmo em campo com o Bobby Charlton. Agarra a bola e deixa-a aos pés dele!”. A maior exigência táctica do futebol actual aumentou as responsabilidades deste jogador para lá dessa fidelidade canina.

Sobretudo no plano construtivo, onde passou a ser o primeiro arquitecto da transição defesa-ataque. Existem, porém, vários tipos de pivots-defensivos. Diferentes estilos que condicionam a forma de jogar de qualquer equipa. Pensem nos três grandes do nosso campeonato. FC Porto, Sporting e Benfica. Cada qual com a sua âncora. Paulo Assunção, Miguel Veloso e Petit, respectivamente. Por princípio jogam todos sozinhos nesse espaço, mas, com Camacho, Petit passou a ter companhia. É o duplo-pivot defensivo. Quanto maior visão de jogo e capacidade técnica tiver um jogador, mais dificuldade terá em jogar acompanhado nessa zona e posição. Com outro jogador no mesmo espaço, de perfil ou sobrepondo-se, fica em causa a sua liberdade de movimentos. É inevitável chocar com esse seu duplo, mesmo que ele tenha características muito diferentes. O argentino Redondo, que jogava nessa posição com grande classe, dizia mesmo que quando lhe colocavam outro jogador ao lado era como lhe tapassem um olho e o obrigassem a jogar assim.

Selecção, O segredo do «homem-âncora»Dos nossos três exemplares, Veloso é o que teria maior dificuldade em jogar dessa forma. Fisicamente, até lembra Redondo no estilo de jogar. Falta-lhe um pouco mais de profundidade e velocidade. A forma evoluída como, mesmo assim, faz o lugar, prova, afinal, que a primeira qualidade posicional para jogar nessa posição é estar quieto. Saber estar no sitio certo para pegar na bola e dar o primeiro passe na saída para o ataque.

Sem correr riscos. É, talvez, a posição em que um jogador até pode ser lento e, mesmo assim, desempenhá-la de forma quase perfeita. No clube e na selecção, Miguel Veloso tem a vida toda à sua frente para deixar marcas nesse espaço. Estruturalmente um recuperador, Petit é o que poderia entrar mais facilmente nas diferentes dinâmicas de um duplo pivot-defensivo, ao lado de um jogador mais técnico e com classe para sair a jogar. Por isso, o sucesso da dupla que estava a fazer com Rui Costa. Definidas as missões, um pressiona para jogar, recupera, e outro…joga. Paulo Assunção é o que faz a posição de forma mais híbrida. Corta e passa. Atravessa o jogo com discrição, mas nunca deixa a equipa desequilibrar-se. Joga sem mexer um nervo da face. Cobre os espaços e intercepta linhas de passe. Raramente algum destes jogadores aparece em destaque nos resumos. Sem eles, porém, qualquer equipa perde o seu pêndulo nas quatro linhas. Eles são a prova de como o futebol evoluiu nas últimas décadas recuando o seu centro de gravidade táctico do clássico médio-centro para o novo trinco reciclado, o pivot-defensivo, a tal «âncora» da equipa.

Makukula: «Made in Portugal, United Colours»

Selecção, O segredo do «homem-âncora»Pensava-se em Hugo Almeida, mas a babilónia futebolística traria, porém, outro gigante. Inesperado, chegou ao Cazaquistão sem sequer botas para treinar, mas isso não era o mais importante. O que interessava mesmo é que trazia no seu corpo 1,90 de altura de 92kg. de peso. Um gigante de origem congolesa. Makukula. Entrou em campo, solto, e, após, como lhe chamou, uma «coisinha» de Quaresma (leia-se finta fantástica e centro com precisão matemática) cabeceou para o golo que abriu caminho ao triunfo luso na distante relva cazaque. Não sou um adepto dos naturalizados nas selecções. Por várias razões. Porque põe em causa o que deve ser, para mim, uma verdadeira selecção nacional de futebol, porque desvirtua a identidade nacional, afecta a comunidade de cultura e emoções que ela deve ser e transmitir, adultera-lhe o estilo próprio (que, por exemplo, distingue, desde os infantis, um alemão de um brasileiro) porque compromete a formação no futebol juvenil, etc. Mas, este é um mundo «globalizado». É impossível fugir disso. Por isso, penso que se devia definir regras até que ponto um jogador pode ser seleccionável sem colocar totalmente em causa os valores que atrás mencionei.

Não chega dizer que é cidadão português e tem igualdade de direitos. Isso é tão verdade, como o Tratado de Roma consagrar a especificidade da arte e da cultura em relação a outras actividades e colocar-lhes limitações particulares. Considero o futebol uma arte. E a selecção uma comunidade de cultura e emoções. Viver antes de jogar. O local de formação do jogador seria um excelente meio para definir jogadores seleccionáveis. Makukula é um desses casos. Veio para Portugal aos 8 anos e fez cá toda a formação. Jogou nos Sub-21 nacionais. Por isso, o seu caso é diferente de outros que chegam já seniores a um país, sem qualquer ligação com ele, vida ou futebol. Como seria também natural Makukula, por razões de sangue, jogar pelo Congo. Tudo o que ultrapassar estes dois casos, é fugir à essência de uma selecção nacional. A selecção ganha, assim, um novo gigante. E este pode fazer a diferença.

Dentro da área, o espaço que tanto condiciona o nosso futebol nos grandes momentos.

Murtosa, «O novo bigode»

Selecção, O segredo do «homem-âncora»A selecção nacional já teve muitos bigodes á sua frente. Do farfalhudo de Artur Jorge, passando pelos personalizados de Humberto, Queiroz ou Oliveira. É curioso verificar como todos depois o cortaram. Questão de moda, dirão. Scolari, homem de convicções fortes, acredito que não mudará a coerência estética. Nenhum bigode, porém, terá suscitado tanta interrogação como o surgido nos últimos dois jogos. O seu dono, um anónimo adjunto brasileiro, promovido, por ironias do destino, a chefe da selecção lusa. É Flávio Teixeira, o Murtosa. Quem segue a selecção, porém, nunca receou. Os jogadores gostam dele e isso é o primeiro passo para se fazer uma equipa. Quando na viagem para a Alemanha alguns deles foram ao «cockpit» do avião e brincaram com mensagens ao microfone do avião, todas elas foram para se meterem com Murtosa. Que ia ficar retido no aeroporto, que tinha de voltar para trás, etc. Lembrei-me disso ao ver estes dois jogos e logo percebi que Portugal nem sequer ia ficar a perder com o facto de Scolari não estar no banco. Pelo contrário. Estava lá o Murtosa. E sem pensar em cortar o bigode, acredito.