Sem toques de calcanhar

21 de Novembro de 2009

O nome lembra um toque de calcanhar. Ressonância mítica que vem dos anos 80, data da última aparição da Argélia num Mundial. Mais de duas décadas depois, os herdeiros de Madjer regressam à elite após um jogo épico, contra o Egipto, no Sudão. É verdade que durante esses 90 minutos não se viu nem um toque de calcanhar, mas o futebol africano redescobriu uma nova grande selecção. Esta Argélia de Ziani, o pequeno maestro, é hoje dos projectos de futebol mais atraentes do continente. Tem técnica apurada, um estilo apoiado, e inteligência táctica.

Está longe de possuir a imaginação da região negra, morada de Ghana, Nigéria e Camarões (outras selecções apuradas) mas no plano global de jogo, o onze argelino é hoje o mais completo nos relvados de África. Tem excelentes avançados (o esguio Saifi no centro do ataque, apoiado pelo rápido extremo Matmour e pela dinâmica agressiva de Ghezzal ou Djebbour) médios com criatividade e visão de jogo (Ziani, sempre com a bola colada ao pé, e o sábio Meghni), trincos fortes (o pêndulo Mansouri e o resgatado Yebda que antes pisara a Luz) defesas que cortam tudo (o temível Bougherra e os eficazes Yahia e Haliche) e um lateral que faz todo o flanco (o esquerdino Belhadj).

Frente ao Egipto, mudou de sistema de um jogo para o outro. No Cairo, jogou em 3x5x2 (que fechava em 5x3x2 sem bola). No jogo de desempate, no Sudão, jogou em 4x2x3x1. Nos dois sistemas teve excelente posse de bola e quer com defesa a «3» como clássica linha de «4», soube defender sem se limitar a meter bolas na bancada.

Revendo a lenda de 82, falta-lhe mágicos como Madjer ou Belloumi, mas existe mais organização. Um processo semelhante, noutro contexto, ao dos Camarões, que em 82 lançaram pela primeira vez na história uma selecção da África negra como grande destaque num Mundial. Era o onze de N`Kono, o guarda-redes que defendia de calças e ficava estático quando um avançado lhe surgia isolado para depois fazer uma grande defesa, e que já tinha no ataque o perfume de Milla. Ao longo dos tempos, o futebol camaronês tem crescido muito. Ver jogar hoje a sua selecção, é quase como ver uma selecção europeia (onde jogam todos os seus jogadores). Foi o que senti vendo a sua exibição segura em Marrocos. Joga num equilibrado 4x1x3x2, pensado por Le Guen, com Song a pivot, Emana a fechar na esquerda, e dois médios recuperadores a pressionar alto (Nguemo e Makoun) soltando, depois, Webo e Eto`o no ataque.

O futebol africano está cada vez mais europeizado. Mesmo o da região negra. Aquele que hoje melhor consegue o cruzamento de todos estes aromas, está, porém, na região norte, África branca, nas terras do Magreb. É o renascer argelino.