Ser guarda-redes é “ser mais alto”

06 de Janeiro de 2016

Confesso o defeito. Falo pouco dos guarda-redes. E nem é tanto pelas grandes defesas. É pelo que são hoje como “jogadores de campo”, orientando defesas ou no espaço nas costas da linha defensiva quando subida e são quase “liberos” a sair em antecipação ao avançado furtivo que fura essa zona vazia. Em vez de 4x3x3 ou 4x4x2, devia falar 1x4x3x3 e 1x4x4x2.
A motivação deste artigo são, porém, as grandes defesas de André Moreira, “caixa-forte com luvas” do U. Madeira. Defendeu tudo contra Slimani e resto do onze leonino.
O titulo como que mete os guarda-redes num poema. “Ser mais alto”. É, primeiro, uma constatação de exigência atlética (o André Moreira tem 1,95m.). Para chegar mais longe, mais alto, elástico e com o pé de apoio certo pronto para impulsionar o voo (este aspecto é que separa uma grande defesa de um voo que chega tarde à bola).
É, depois, uma questão de estilo, “pinta de quem enche a baliza”. Talvez, por isso, sempre gostei dos guarda-redes todos vestidos de preto. Há, no passado, grandes guarda-redes “roda-baixa”, como o mítico Bento (1,74m) mas esse não é o padrão normal da posição. E por falar em “pinta”, da mesma época lembro-me logo do Damas, sobretudo quando punha a brilhantina nos jogos à noite, um galã nas redes. Avançado no tempo, em tudo. Na imagem e no estilo (até nas saídas com o corpo todo aos pés dos avançados).
Hoje os guarda-redes não são tão valorizados a esse nível global. São julgados a cada toque na bola, mais pelo que (não) fazem com os pés, do que pela tal influência na equipa.

O André Moreira é até um caso que já tem a carreira encaminhada, pelo empresário e o At. Madrid que o emprestou, mas há outros guarda-redes para ver bem neste campeonato. Mesmo no fundo da tabela, onde gosto de Trigueira, na Académica. E torço muito pelos miúdos que aparecem, o Miguel Silva no Vitória, o Rui Silva no Nacional e queria ver José Sá titular no Marítimo. O Marafona é daqueles que faz acreditar que há sempre um momento ideal guardado algures na careira.
Dos que estão nos grandes já se sabe, mas acho que o melhor (ou o mais decisivo) até agora é Kritciuk, na baliza do Braga, mesmo sem ser daqueles que voa muito, porque nunca sente necessidade de dar esse lado fotogénico para quem está com a objectiva apontada atrás da baliza.