«Ser ou não ser», eis o…jogador!

24 de Maio de 2010

Não é possível adivinhar o futuro, mas é possível prevê-lo. E, no futebol, é sobretudo possível prepará-lo. É nessa moldura que se move o «futebol de formação».
Vendo os três grandes nas primeiras jornadas da fase final do Nacional Sub-19, tiram-se muitas notas. Roderick, central no Benfica, tem pinta de jogador no sentido da personalidade que coloca no jogo. Cabeça levantada, altivo, peito cheio e bola controlada a subir.
Mas, vejo-o jogar e fico na dúvida: é central ou pivot? E digo, «é» porque acredito que mesmo antes da opção do treinador, qualquer jogador já «é» (pela forma quase inata como se relaciona com o jogo) uma identidade (posição) na estrutura da equipa. Nesse sentido, imagino Roderick a pivot. Fez, aliás, toda a sua formação nessa posição.

A razão porque nas selecções mudou de lugar foi a pior possível: porque não existiam centrais. Ou seja, a opção em vez de resultar da avaliação das características do jogador (colocando-o no lugar que as melhor respeitava) resultou da necessidade de colmatar lacunas na equipa. Numa equipa profissional, essas adaptações circunstanciais até são admissíveis. No futebol base, isso só confunde a formação (específica) posicional de um jogador. Resulta dessa indefinição saber se Roderick «é» central ou pivot. Pode ser as duas coisas, tem valor para isso, mas, embora jogue bem a central, projecto nele um pivot completo. Tanto sabe sair a jogar, como sabe encostar aos centrais para fechar.

No domingo, jogou-se o FC Porto-Benfica. Na estrutura, Diamantino, depois do 4x2x3x1 contra o Sporting, surgiu em 4x4x2 losango. Fagner assume o lugar 6, mas é quando Danilo (na foto em cima) joga nessa posição que a equipa fica logo mais equilibrada. Ambas as equipas procuram profundidade pelas faixas. O FC Porto de Greveraars, em 4x3x3, com um pivot (Renato) a sair em posse e dois interiores com temporização por vezes excessiva. Mas há razões para isso. Tem, porém, extremos. (Christian é rápido e Alex, imaginativo no um-para-um, cruza bem com o pé esquerdo). Há, ainda, um lateral esquerdo que corre 90 minutos, o marfinense Katalin.

No Benfica, um ponta-de-lança (Evandro Brandão) forte, mas que precisa de maior inteligência de movimentos (Nelson Oliveira, emprestado ao Rio Ave, é muito mais jogador). O ataque vive da mobilidade de Adul. Desmarca-se muito bem, quer vindo da ala, quer jogando solto. Tenho, porém, dúvidas sobre como reagirá à maior dimensão física e táctica do futebol sénior. Sana tem qualidade de passe entre-linhas mas foge muito dos locais de último passe (táctica intencional ou falta de personalidade para assumir jogo?). O brasileiro Rafael Costa tem um pé esquerdo iluminado, mas precisa aumentar o ritmo. Num jogo foi lateral-esquerdo, noutro médio-esquerdo e acabou no centro.

Outra questão em aberto no debate sobre a formação é o papel (excessivo) dos estrangeiros nas nossas equipas. Para já, fica só o futebol sem olhar ao berço…

Ser ou não ser eis o jogador4

Crescer (jogar) com a bola

Grande referência da formação, os leõezinhos Sub-19 (em 4x3x3, contra o Guimarães, ou perto do 4x2x3x1 ao fazer recuar outro médio mais para perto do pivot, contra o Benfica) é uma equipa rápida a atacar desde trás. Os seus pivots fazem o jogo andar (muito bem Luís Almeida a acelerar a transição) e na faixa direita tem um lateral de categoria. É Cédric. Defende e ataca, sempre com garra e timing táctico. Quanto ao excelente Luis Almeida coloca-se a questão física como interrogação. Precisa no futebol sénior de um treinador que não receie apostar num pivot baixinho…
Na segunda linha do meio-campo, William Carvalho, forte e com bom passe, embora pareça algo lento para jogar como ofensivo. Mas como lê bem e ganha no duelo físico, mete sempre qualidade (temporização/passe) no jogo. No ataque, um ponta-de-lança gigante, Amido Baldé que, apesar da sua pujança física fazer prever o contrário, faz muito bem o um-para-um. Para isso, nem precisa de embalar, pois move-se em espaços curtos. Chegou tarde ao futebol, é um talento em bruto, veremos como evolui.

Ser ou não ser eis o jogador

A “identidade” da posição

No FC Porto Sub-19, muitas expectativas em torno de Sérgio Oliveira, que já jogou na equipa principal. A maioria, porém, só o conhece de o ver numa posição diferente daquela que antes fez toda a formação, como pivot. Agora, tem jogado como 8, um dos vértices subidos do triângulo (no outro está Dias, jogador de equipa) do meio-campo, quase a 10. Quando tem a bola, resolve e passa bem, mas percebe-se que aquela não é a sua «casa táctica» natural. Nesse lugar, perdeu intensidade pois tem o ritmo (e temporização) típico de um pivot. Temo que esta alteração posicional lhe retire o melhor do seu jogo nesta fase decisiva de crescimento (e, sobretudo, amadurecimento táctico/posicional).
A equipa, porém, joga num 4x3x3 com um pivot indiscutível: o brasileiro Renato. Tem uma maturidade acima da média. Chegou em Janeiro, depois de se destacar no Goianão Sub-18. Com visão táctica a sair com a bola, não se limita ao passe curto. É um queima-linhas personalizado. Será única razão aceitável (na táctica do onze) para Sérgio Oliveira ter subido no terreno.